“Milhas de Distância” é, de fato, um dos meus livros favoritos

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Eu tenho muita dificuldade em apontar para algo e definir: “esse é minha coisa favorita”. Porém, com “Milhas de Distância”, da A.B. Rutledge, não tem como negar, após ler pela segunda vez: é um dos meus livros favoritos da vida. Fala de tanta coisa e de uma maneira tão única que, não sei, não consigo realmente atacar essa obra.

Agora que sentei para escrever sobre a história me parece que a resenha, de uma forma ou de outra, vai ficar incompleta. Estou sendo sincero. “Milhas de Distância” aborda tantos assuntos que me parece que, não importa o quanto eu escrever, sempre vai ficar faltando algo para falar. Talvez algo que eu mesmo tenha perdido ao ler, ao tentar absorver tudo o que acontece.

“Milhas de Distância” é um livro queer – para usar uma palavra utilizada pelo protagonista, Miles. Fala desde identidade de gênero (transexualidade) até orientação sexual (homossexualidade, heterossexualidade, pansexualidade, entre outros). E o que eu mais gosto na obra é que aborda esse assunto de uma maneira normal, como deve ser feito.

Vivian é uma jovem garota transgênero. E ao longo de todo o livro ela é tratada assim, como ela é: uma garota. Exceto quando é abordado o preconceito e homofobia dos pais, que ainda a tratam pelo gênero masculino, pré-determinado ao seu nascimento. Esse equilíbrio é escrito de uma forma tão bela por Rutledge, que até mesmo quando Miles – namorado de Vivian – revela estar interessado por um homem/garoto, as mães (sim, Miles é filho de um casal de homossexuais) demonstram surpresa, pois até então não sabiam que Miles tinha interesses por pessoas do mesmo gênero.

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Como diz a sinopse do livro, portanto não é um spoiler, Vivian tentou suicídio e ficou em coma por, pelo menos, 18 meses. E esse é outro ponto que a obra de Rutledge aborda: a depressão e, até mesmo, tentativa de suicídio, seguindo de forma ideal a cartilha da Organização Mundial da Saúde (por que choras, série 13 Reasons Why? – não li o livro, porém pretendo, mas julgo a série como uma das piores coisas já feitas na história da humanidade [só vi a primeira temporada e larguei], justamente por, basicamente, rasgar a cartilha da OMS sobre o assunto).

Ao abordar assuntos tão pesados, imaginamos, claro, que a obra de Rutledge conta com um aspecto, uma atmosfera mais sombria. O que não acontece. Não nos enganemos, toda a dor dos assuntos pesados ainda estão ali. Tentativa de suicídio, preconceito, homofobia, depressão, dores por erros do passado. No entanto, a história é desenvolvida tão bem, a escrita é tão fluida, que a obra se torna uma lição, digamos, divertida, por mais que essa palavra possa soar contraditória por tudo o que estou dizendo.

Devido a dor, e digo mesmo até um sentimento de culpa, pela tentativa de suicídio de Vivian, Miles viaja para a Islândia – após 18 meses – para continuar vivendo e tentando superar o luto pela namorada – Vivian está, tecnicamente, viva, porém por aparelhos -, algo que ele ainda não conseguiu fazer.

A história é narrada totalmente sob a perspectiva de Miles, portanto temos uma conexão direta com todos os seus pensamentos e sentimentos em cada uma das situações que vão se desenvolvendo. Apesar de, obviamente, nunca obter respostas, Miles vai mandando mensagens de texto para Vivian ao longo de todo o livro – e é desta forma que a história vai sendo completamente desenvolvida.

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Luto, culpa, homossexualidade, transexualidade, homofobia, arrependimento, dor, amor, paixão, tesão… “Milhas de Distância” passa por todos esses assuntos, por todos esses sentimentos. E o grande trunfo do livro é não soar forçado, fazendo as transições de sentimentos com naturalidade, colocando “os pingos nos ‘is’”. Ademais, mostra o quanto pessoas à nossa volta podem ser importantes para que passemos por tantos processos dolorosos, sejam pessoas conhecidas recentemente ou que estão conosco pela vida inteira.

Voltando aqui agora, depois que já terminei de escrever, para falar ainda um pouquinho mais. Eu disse que poderia sempre ficar incompleto. Esse livro é incrível. Mas enfim. “Milhas de Distância” também é sobre estar perdido, acredito que é até mesmo um dos pontos principais, é sobre se encontrar, mesmo no meio de uma tempestade. É sobre se ver pelos seus olhos. É sobre entender que você não é “uma fotografia” ou “um código binário”, como destacado na obra. Você apenas tem que continuar vivendo a sua vida, seguindo em frente. Aí trago um dos milhões de trechos marcados no meu livro, perfeitamente descrito pela A.B. Rutledge.

“[…] E tudo que aconteceu, de bom e de ruim, serviu como uma prova inquestionável de que, não importa se eu estiver sangrando na lama ou envolto nos braços de alguém, não tenho outra escolha a não ser seguir em frente. Minhas sinapses ainda estão trabalhando, meu coração continua pulsando no peito. […] Ainda existo.”, escreveu a autora.

E isso ainda vai de encontro com uma outra tatuagem que eu tenho, “Still Beating…”. Afinal, enquanto seu coração estiver palpitando, não importa a tempestade, a dificuldade, você ainda pode seguir em frente. E assim, de fato, eu finalizo essa resenha, de um dos meus livros favoritos na vida. Prometo agora tentar fechar de vez esse arquivo de texto para não acrescentar mais nenhuma informação sobre esta obra.

Autor do Post:

Henrique Schmidt

O louco dos livros, filmes, séries e animes. Talvez geek, talvez nerd, talvez preguiçoso, mas com certeza jornalista

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