“Com Amor, Simon” e a importância dos questionamentos

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Eu sou um grande fã de cartas. Sério. Acho que há uma beleza singular em trocar correspondências com uma pessoa especial. E, pela segunda vez, fiquei encantado com essa troca em “Com Amor, Simon”, de Becky Albertalli, apesar de serem cartas eletrônicas – o que, para mim, não perde em nada a beleza.

Claro que esse não é o principal assunto da obra. O livro é uma bela história de amor entre dois jovens rapazes (me senti muito boomer usando a expressão “jovens rapazes”). Porém, muitas outras coisas estão envolvidas, as quais eu quero falar, mas ainda estou pensando em como fazer para não dar nenhum spoiler.

Simon, o protagonista, é homossexual. No entanto, a orientação sexual dele ainda é um segredo não revelado espontaneamente para ninguém. Ele, conhecendo seus pais e amigos, sabe que não teria problemas em revelar. Porém, como Simon sempre diz, sua família sempre faz muito estardalhaço por pequenas coisas. Mesmo sabendo que nada vai mudar significativamente, ainda é um incômodo fazer essa revelação.

Na real, além da história de amor – que envolve os e-mails, então já me conquistou quase que totalmente -, o que eu mais gosto na obra de Albertalli são os questionamentos que o protagonista vai fazendo, mesmo que em tom de brincadeira ou deboche, ao longo de toda a obra.

Por exemplo, em determinado momento ele brinca sobre o motivo dos homossexuais precisarem “sair do armário”. Por que existe essa necessidade da sociedade com essas revelações? Seria por causa da normalização da heterossexualidade em detrimento (leia-se homofobia) da homossexualidade? São coisas que normalmente passam despercebidas.

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Outro questionamento, do qual gostei muito e mostra o quão racista somos como sociedade, é a normalização de personagens brancos. Não falarei tanto do contexto do questionamento por motivos de spoiler. No entanto, após ter uma revelação, Simon destaca: “Branco não devia ser o padrão, assim como hétero não devia ser o padrão. Não devia existir nenhum padrão”.

Para mim, o fato do livro, que é voltado para o público adolescente, chamar a atenção para esses dois pontos destaca a importância de prestarmos atenção e evoluirmos em questão a eles. Por que, ao ler um livro qualquer, primeiro imaginamos o protagonista como branco? Obs: a generalização aqui está servindo apenas como exemplo e por ser o padrão social, o que não significa que é o seu caso.

Já sobre o caso da homossexualidade, “Com Amor, Simon” não traz nenhum episódio de violência direta padrão contra o protagonista ou qualquer outra pessoa. Não há agressões físicas ou verbais diretas (com exceção de um ou dois casos). Mas chama a atenção para a homofobia disfarçada de piada, para essas “pequenas” (entre aspas mesmo, pois podem ser enormes para algumas pessoas) agressões que são normalizadas pela sociedade padronizada como heterossexual.

Em determinado momento da obra, e mais uma vez não entrarei em tantos detalhes por spoiler, Simon destaca a impossibilidade de dar as mãos a outro garoto em público por estarem na Geórgia (não sei se é um estado norte-americano mais homofóbico do que o normal, mas acredito que, independente da localidade, poderia estar o nome de qualquer lugar).

Falando rapidamente da história de amor, até para não passar despercebido, é muito fofo, né? As trocas de e-mails, inicialmente apenas se conhecendo e conversando sobre eventualidades, pequenas coisas e tal. Depois se tornando ainda mais pessoal e, quando viram, já estavam apaixonados por correspondência eletrônica. Há uma beleza nisso, em se apaixonar pela alma da pessoa. Me julguem, mas acho lindo demais.

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Enfim, “Com Amor, Simon” é um livro que vale a pena e deve ser lido, tanto pelo público para o qual ele é voltado quanto para os demais. Ninguém está velho demais para ler um livro adolescente de amor. É uma obra gostosa, fácil de ser lida e que traz questionamentos importantes. Ah, o filme também vale a pena, apesar das modificações.

Autor do Post:

Henrique Schmidt

O louco dos livros, filmes, séries e animes. Talvez geek, talvez nerd, talvez preguiçoso, mas com certeza jornalista

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