CRÍTICA | The Good Doctor: o reflexo menos dramático de Grey’s Anatomy

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O não tão novo drama médico adquirido pela Globoplay trás o astro de Bates Motel e o autismo como peças centrais da trama e, também, como os maiores fortes da série. Com apenas 3 temporadas até o momento, The Good Doctor (O Bom Doutor, na tradução oficial) tornou-se um dos maiores sucessos do streaming aqui no Brasil, ao ponto de até transmitirem alguns episódios na TV aberta. Mas será que o já-não-tão-novo-assim drama médico consegue fugir da mesmice já apresentada em outros dramas desse subgênero? E mais: ele consegue se destacar das inevitáveis comparações com a mãe dos dramas (sexuais rs) hospitalares? É o que eu vou tentar explanar para vocês.

The Good Doctor acompanha a vida do doutor (doutor é quem tem doutorado!) Shaun Murphy (Freddie Highmore, eterno Norman Bates), o novo residente em cirurgia no Hospital San Jose St. Bonaventure com o detalhe de que ele possui autismo com síndrome de Savant (um distúrbio psíquico que alia habilidade intelectual e déficit de inteligência). Além de mostrar as vantagens que sua condição lhe fornece como médico, a série também aborda os problemas sociais de interação que pessoas “no espectro” (a forma mais correta de falar que alguém tem autismo) possuem ao por em evidência os desafios diários do dr. Murphy em se comunicar com seus pacientes, sua equipe de residentes e seus amigos mais próximos.

Juro que não consegui me desvencilhar do Norman Bates até o 10º episódio da 1ª temporada

O show estadunidense do mesmo criador de House é baseado em uma outra série de televisão sul-coreana que abordava praticamente o mesmo enredo, com a diferença de ser ambientado na Coréia do Sul (não me diga!). A série original foi bastante premiada e vale a pena ser assistida pelo que eu pude ler em minhas pesquisas, mas você não é obrigado a vê-la para poder assistir à queridinha da Globoplay.

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O ator mais famoso aqui é o Freddie e é o que merece mais destaque. Não que o resto do elenco seja ruim, muito pelo contrário: todos conseguem passar a dramaticidade necessária e esperada de um drama onde pessoas morrem a cada 1 ou 2 episódios. Mas o Freddie (lembra de A Fantástica Fábrica de Chocolate?) já carrega uma certa pressão nas costas por seu desempenho em Bates Motel, o qual foi fenomenal! Interpretar um personagem clássico e cult dos anos 60 definitivamente NÃO é fácil, já que qualquer errinho já seria apontado como “desmoralização” da obra-prima de Alfred Hitchcock, Psicose. Então, vistas as suas expressões impressionantes de um sociopata com transtorno dissociativo de identidade em BM, todas as expectativas em cima do ator foram, felizmente, compensadas no novo drama. E com louvor!

Falando como um estudante da área da saúde, sua representação de um indivíduo no espectro foi uma das mais emblemáticas e fiéis que já vi, sem querer comparar com o drama da Netflix que também aborda o autismo, Atypical. As expressões faciais e o comportamento postural de Freddie aqui estão estupendamente reais! Se o ator não fosse conhecido, eu diria que ele realmente está no espectro. O olhar distante, o constante desviar dos olhos para evitar contato visual, o esfregar das mãos e o jeito de falar são absurdamente reais e, para mim, o que tem de mais elogiável na série. Tudo o que toca no autismo foi muito, muito bem feito.

Talento, né queridxs!

Já sobre o drama em si, o show nos apresenta as já esperadas “pequenas grandes” lições para se levar na vida. Todo drama médico (ER, House, The Resident, Private Practice…) trás consigo essas morais (na maioria das vezes) no contexto dos pacientes, tais como aproveitar mais a vida, falar que você ama alguém antes de morrer, não viver com arrependimentos e coisas assim. TGD não foge a esse clichê, o que não é uma coisa ruim. É apenas algo que você já espera, sabe? E, apesar de não ter inovações nesse quesito, pelo menos o clichê é bem feito. Afinal, os segredos dos clichês são a inovação e a qualidade. Qualidade? Aqui tem. Inovação? Ééérr…

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Sim, eu cheguei no ponto que você, fã doido de Shonda Rhimes (assim como eu), já esperava: as inevitáveis comparações com Grey’s Anatomy. Olha, até que não tem muito o que falar. Os dramas dos médicos em si diferem o suficiente para que você não fique pensando “isso já aconteceu em Grey’s Anatomy”. Até agora, não houve bomba, afogamento e nem tiroteio. Já os dramas dos pacientes… alguns parecem até terem sido copiados: já teve até baile de formatura pra adolescente cancerosa, paciente terminal que saiu gastando horrores em paraquedismo e afins e coisas do tipo. Isso quebra a identidade própria do show, mas até que não culpo os roteiristas. GA é a versão live action de Os Simpsons: tudo o que você imaginar já aconteceu lá (quem lembrou de South Park?). Então não tem como inovar tanto quanto queremos.

Com o passar das temporadas, eu percebi que a série foi cometendo, ironicamente, o mesmo erro de Grey’s. Alguns arcos de personagens pareceram meio apressados para caber naquele episódio ou para acabar mais rápido. Em uma narrativa dessas, em que temos que acompanhar os problemas familiares, sociais e até marcas psicológicas de pessoas aparentemente reais, tudo tem que ser feito bem aos pouquinhos. Problemas não se resolvem do dia para a noite na vida real. É como se os roteiristas tentassem acrescentar dimensões nos médicos “secundários” ao dr. Murphy, mas, em alguns momentos, apressassem muito para chegar ao fim daquele arco e apresentar uma lição de vida que perde boa parte do impacto porque não tivemos tempo o suficiente de simpatizar com aquilo. Isso não ocorre ao ponto de irritar, mas faz a gente (ou pelo menos eu) se desprender da série.

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Por fim, eu ainda posso citar aqui a presença de um pouco de repetitividade, a qual eu observei bastante em House. Pelo dr. Murphy ser absurdamente inteligente e um anatomista fantástico, a série mostra ele tendo aquele despertar de quem tem uma ideia incrível no último minuto porque alguém falou alguma coisa aleatória no ar. Tipo, isso é bem legal para mostrar que o bom doutor merece estar no lugar em que está, que ele tem uma inteligência além do normal e tals… mas tem uma hora que cansa. Os roteiristas parecem ter dado um jeito nisso, fugindo pra bem longe dessa monotonia que era exacerbada em House. E, pelo menos, não chegou ao ponto de incomodar tanto aqui.

Tudo o que eu queria ver um eletrocardiograma e a anatomia humana do jeito que o dr. Murphy vê

Bem, apesar dos pesares, The Good Doctor é uma série muito boa. Tanto para estudantes da área da saúde como para pessoas que só querem sentar, relaxar, rir e se emocionar com alguns momentos bem pontuais. Sua qualidade está acima da média do que vemos diariamente na TV, então eu a indico para qualquer pessoa. Só tente não ficar sempre comparando ela a outras séries desse mesmo subgênero, apesar de ser algo impossível de não se fazer. Aprenda mais sobre o autismo e apaixone-se lindamente pelo dr. Shaun Murphy. I AM A SURGEON!

Trailer legendado:

Autor do Post:

Matã Marcílio

https://instagram.com/mat_marcilio/

Um pré-fisioterapeuta nordestino que, perdido no mar das incertezas, fez das palavras seu refúgio. Um pouquinho mais de duas décadas de leitura e sedentarismo causado pelo prazer de deitar em frente a um espelho negro e observar toda a glória do homo sapiens ao escapar da realidade terrivelmente entediante. “Jojo Betzler. Hoje, só faça o que puder.”

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