CRÍTICA | ‘Smile’: No álbum introspectivo do ano, Katy Perry encontra sua redenção

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Katy Perry começa Smile, seu quinto álbum de estúdio, num verso que diz I’m loosing myself control. No último diz There it is Katheryn. Em The One That Got Away, ela cantava Alguém disse que você removeu sua tatuagem/É hora de encarar a música, eu não sou mais a sua musa e agora, em Cry About It Later, canta Eu acho que estou pronta para ser a musa de alguém/Acho que estou pronta para ter uma nova tattoo.

Esse tipo de detalhe, que passa despercebido por uma crítica que deveria ser imparcial e justa, mas que está sempre jogando para baixo e subestimando a cantora de 35 anos, é o que faz de Smile, lançado ontem (28), um trabalho tão potente, inspirador, inteligente, autocentrado e capaz de fornecer testemunho, jogando luz sobre os fatos, sobre todo o percurso que trouxe Katy Perry até aqui.

Se reinventar não é necessariamente mudar de gênero musical, mudar completamente a forma de pensar, agir ou trocar de assinatura, isso pode ser esquizofrenia ou transtorno de múltiplas personalidades, como já bem vimos em Fragmentado (2016). Se reinventar pode ser, ao passo em que se busca novidades, se reencontrar consigo mesmo, buscar referências passadas e as trazer para hoje sem parecer datado. E Katy Perry faz isso. Conhecendo bem seu enorme legado e sabendo sua marca pessoal, aposta principalmente em letras que mostram a sua maturidade, enquanto a sonoridade, embora não seja experimental, é confortável e boa naquilo que se propõe a ser. Qual o problema de investir naquilo que você sabe fazer e sabe que vão gostar, depois de um último trabalho criticado justamente pelo oposto? O encontro com a sonoridade pop que a elevou ao topo dos topos não é preguiçosa, é um encontro com a sua própria identidade, como tantas e tantos artistas fazem sem serem massacrados por isso.

Em Smile, Katy Perry parece ter aprendido muito sobre si mesma, em composições que mostram detalhadamente que a grande descoberta da artista é que maturidade não é um status quo que se atinge, mas a jornada, o processo que te leva a sua máxima essência. Ao usar do tema circo e se fazer de palhaça para se autodepreciar, elemento que sempre foi forte na sua carreira e foi deixado de lado no Witness (2017), Katy consegue o triunfo que não havia sido unânime no seu último disco: se conectar novamente com o público. As composições são intensas, melancólicas e profundas ao passo em que extremamente dançantes e Perry se revela, novamente, ainda mais complexa. Se o Witness (2017) mostra sua vulnerabilidade, Smile mostra seu poder em saber lidar com questões da vida sem cair no abismo da validação externa.

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É bem verdade que a cantora está numa zona sonora confortável, mas dado o que aconteceu na sua carreira quando ela tentou experimentar no último disco, é notável o trabalho da artista em se reencontrar e restabelecer laços com os materiais lançados ao longo dos seus últimos 12 anos. Katy revisita sua carreira –  e abusa de alguns elementos como em Not the End of the World (que lembra muito a sua Black Widow), por exemplo, mas não que isso seja negativo -, revê seus passos com generosidade e relembra um pouco da sonoridade que a fez a estrela que é hoje. O pop dançante trazido em parte de volta do Teenage Dream (2010) encontra com as letras sobre escuridão e luz do Prism (2013). Smile é um álbum sobre autoaceitação e autocuidado que não precisa de uma indústria fonográfica que marca mulheres como produtos sob o rótulo de divas pop que só as arruínam, destroem e frustram por dentro. Smile é sobre se libertar das pressões e expectativas externas, mas é sobre uma libertação que envolva um longo processo de cura, e um sorriso no rosto, que quando espontâneo certamente vem de pé no chão, uma base forte fincada e estabelecida consigo mesma que até nos momentos mais tristes possam te puxar de volta e mostrar que está tudo ok.

A sonoridade com muito sintetizador apostando em timbres graves já havia sido experimentado anteriormente no Witness (2017). Esse tipo de construção já havíamos curtido com Tove Lo e Carly Rae Jepsen e essa marcação rítmica também num pop mais ‘limpo’ com Dua Lipa. Esse grave consegue dar peso as músicas e principalmente ao tom das composições enquanto o frenesi do ritmo e a voz soprano de Katy contrastam e entregam um resultado potente para as pistas de dança, com músicas radiofônicas e por vezes um vocal quase gritado como em Resilient, que combina bem. Teary Eyes, uma das melhores do álbum, trata de um tema delicado e transmite uma paz de quem conta uma história triste de um ponto de vista maduro, entendendo o passado e contemplando o aprendizado. O instrumental mais orgânico, com riffs de guitarra, grooves, lembra bem o Prism (2013) – Only Love que o diga. Aliás, a guitarra na ponte torna a fórmula feita em Cry About It Later irresistível. O baixo bem trabalhado em algumas canções completa a massa sonora. Nesse circo, o maior mistério que o mágico tem em mãos é como é possível conseguir produzir um álbum tão dançante cujo tema é tristeza, depressão e redescoberta.

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A ordem e progressão das músicas é um dos elementos mais interessantes do Smile. Enquanto as três primeiras canções falam sobre ligar o foda-se e se ‘jogar’ mesmo com os olhos literalmente lacrimejados, Daisies constrói uma poderosa base para as próximas, que se aprofundam na temática de reencontro consigo mesmo durante e após as próprias jornadas. Smile é uma faixa-título que sintetiza bem o disco, enquanto puxa a sonoridade mais good vibes de Champagne Problems, Tucked e Harleys in Hawaii, que parecem as pedidas ideias para um passeio na praia num final de domingo com direito a sorvete e patins. Cabe a Only Love e What Makes A Woman finalizarem o álbum com reflexões sobre a vida, mas com certo brilho para que as canções inspirem, não o contrário.

Smile une parte dos discos anteriores de Katy Perry em um só, revela suas facetas com facilidade e relembra seu melhor porque é confortável, sofisticado e não só um reencontro, mas uma redenção. Ao mundo, aos fãs e mais importante: a si mesma. Completo, robusto, rápido, pop e poderoso, Smile vai te fazer sorrir e pensar sobre a vida, o amor, o auge e o fracasso, mas não perca as esperanças: isso é só o começo. O álbum tem roubado a cena pop e dessa vez não pelos números como Katy Perry já foi conhecida, mas pelo impacto e qualidade do trabalho e o momento pessoal de maternidade e noivado da norte-americana. O disco tem tocado mundo afora e os fãs ainda mais apaixonados estão numa Era prontos para defender a cantora com unhas e dentes, inclusive brigando entre si.

Numa volta de 360 graus, Katy Perry retorna ao ponto em que partiu em One of the Boys (2008): pensativa, reflexiva, cheia de dúvidas e pronta para viver as experiências novas que a vida tem lhe trazido. Boas, ruins, mas sempre com um sorriso de quem entende que os processos demandam autoconsciência. Smile é o disco para o verão mais melancólico da carreira de Katy, marcado por performances icônicas, pela nascimento de Daisy, e o ressurgimento de sua figura pública, única cantora a conseguir quebrar recordes intocáveis de Michael Jackson, pronta para rever sua relação com números, provando que a música deve sempre ser suficiente e que seu sorriso nunca pode depender de validação externa. Katy Perry nos deixa a lição mais valiosa dos últimos tempos: não tenha pressa em mudar o mundo adotando um tom político e engajado como feito por ela no Witness (2017), entenda que a mudança precisa acontecer primeiro em você, que os processos se dão de dentro pra fora, as transformações saem de nós, não o contrário. Não seja a melhor cantora, não tenha a melhor colocação nos charts: seja a melhor versão de si mesma. Isso muda o mundo. Autoconsciente, agora os problemas são ‘de champanhe’ para Katy Perry: ela conseguiu seu sorriso de volta.

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Autor do Post:

Paulo Rossi

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Um sonhador. Às vezes idealista, geralmente pessimista e sempre por aí metido num bocado de coisas. Apaixonado por audiovisual, cearense com baita orgulho e um questionador nato com vontade de gritar ao mundo tudo que acredita.

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