CRÍTICA | “Ratched” é a irmã mais bonita de American Horror Story

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Na última sexta (18), o mundo foi contemplado com mais uma obra repleta de críticas, terror e violência de Ryan Murphy. “Ratched” conta com Sarah Paulson liderando a história e dando vida a enfermeira Mildred Ratched. Sim, a mesma do clássico filme “Um Estranho no Ninho“.

Além de Paulson, durante os episódios vemos alguns rostos já conhecidos de outras obras de Murphy. Como, Finn Wittrock, que interpreta o serial killer com um passado tão traumático quanto o seu presente.

A história se desenvolve aos poucos, a medida que Mildred se instala no hospital estadual de Lucia, na Califórnia, e começa a encaminhar seu plano. A principio, é comum ficar apreensivo e desconfiado de todos os movimentos da protagonista, visto que no filme e no livro ela é uma mulher fria e genuinamente má. É normal criar uma certa perspectiva sobre a personagem, ainda que ela tenha mostrado pouco de sua motivação, devido a sua fama incontestável. O lado bom, ou não -depende do seu ponto de vista-, é que a série consegue desmistificar um pouco disso e mostrar uma diferente faceta de uma das maiores antagonistas da literatura.

Na série, Mildred é uma enfermeira que acredita que os fins justificam os meios, que toda sua ação vem de uma misericordiosidade e grandeza que habita dentro de si. Ela confia tanto nisso que faz com que os outros também acreditem nisso. Ainda que mate, chantageie e use as pessoas ao seu favor. 

Ainda sobre a protagonista, nesta adaptação ela é transformada em algo diferente do que já vimos. Quase como uma heroína ou alguém bom, o que chega ser um choque em certos momentos da história, porque faz com que você comece a se indagar se aquilo é realmente correto.

No entanto, não é só de Mildred que sobrevive “Ratched“. Grandes personagens passaram pela série, Edmund (Finn Wittrock), em si foi um grande adendo a obra. Sua atuação é convincente e perigosa, pelo mesmo motivo de Mildred, em certos momentos você se questiona se ele realmente é genuinamente mau, ainda que tenha assassinado quatro padres. Isso tudo se dá graças a sua atuação.

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No entanto, quem roubou a cena, ainda que tenha aparecido apenas nos episódios finais foi Sophie Okonedo, que interpretou não só a Charlotte Wells, mas como suas outras quatro personalidades. Sophie não foi somente boa, ela foi excepcional. Sua voz, seu olhar, seus trejeitos mudavam assim que cada personalidade nova surgia, tomando seu corpo inteiro. Sua presença não só agregou positivamente ao enredo da série, já que sua personagem tem uma importância gigantesca no fim da temporada, mas foi uma aquisição extremamente positiva ao corpo de elenco que já era consistente em entregar boas atuações, ela contribuiu em não só acender a chama, mas incendiar todo o lugar. 

E, como conhecemos Ryan Murphy, quando ele gosta de um ator ou atriz ele coloca na panelinha das produções originais dele, né? Então, sem dúvida alguma espero ver Sophie novamente.

Talvez seja por causa dessa “panela”, pelo fato de vermos alguns rostos conhecidos, que seja inevitável comparar a série com American Horror Story. Em certos momentos parece que Ratched é mais uma temporada perdida de AHS. Os posicionamentos da câmera, a forma como a história é contada, a sua ousadia e o terror provocado pelos humanos,  além de outros elementos providos do Murphy levam a fazer essa comparação. 

Ainda assim, Ratched consegue ser mais pé no chão do que as temporadas macabras de AHS. A série de Mildred, aborda feminismo, homofobia e a intolerância em todas as esferas, mas principalmente as que rodeiam a mulher. Durante os 8 episódios, entre o drama principal, a série consegue evidenciar como era difícil ser uma mulher nos anos 40, ainda mais se você quisesse ter uma carreira ou amar alguém do mesmo gênero.

Infelizmente, a obra não se sustenta somente com coisas boas, Sharon Stone pra mim foi a maior decepção. E quando digo isso, não me refiro a sua atuação ou caracterização, critico o roteiro que não soube aproveitar as possibilidades infinitas que sua personagem oferecia. 

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Foi uma decepção também porque todo marketing da série trazia fotos da atriz acompanhada de sua macaquinha com roupas extravagantes, logo, um hype foi adicionado em cima da importância de Sharon no enredo da série. Infelizmente, pouco se teve. Me atrevo dizer que sua personagem é tão irrelevante que se a tirasse da história não faria diferença alguma. Apesar de ter rendido um final que causa surpresa e tira algumas risadas.

Vejo que isso é o único defeito relevante que a série carregou. Porque, por outro lado, tantas coisas foram excepcionais se sobressaindo aos pequenos tropeços ao longo dos episódios. 

Uma das grandes qualidades foi definitivamente tudo que envolveu a cinematografia da série. Tanto a fotografia, quanto a escolha da locação das filmagens e a caracterização de época que os personagens e os lugares receberam. As cores vibrantes e até mesmo quando toda a cena fechava em uma cor monocromática, evidenciando o humor do personagem em destaque, vai definitivamente ser um dos fatores para a série chegar as grandes premiações no ano que vem.

Resumindo, Ratched é linda demais.

Além disso, a trilha sonora, digna de grandes produções de cinema, emergia durante momentos cruciais da trama. Crescendo gradativamente, a trilha sonora fazia com que o espectador fosse abraçado pela sensação imposta e inserido completamente na história. 

O desenvolvimento da história, ainda que por vezes possa parecer lento, foi condizente com o enredo e o que ele precisava para se manter atrativa ao público. Personagens secundários como a Enfermeira Betsy (Judy Davis) ou Huck (Charlie Carver) roubavam a cena quando serviam de ferramenta para a progressão da história, com seu carisma e desenvolvimento pessoal, criando um laço com o público.

Diante de tanta violência e preconceito (literalmente surto atrás de surto), a série ainda consegue arranjar um espacinho para explorar o romance em diferentes vertentes. O amor “bandido”, explosivo, a paixão insaciável se faz presente em alguns episódios, mas é o amor duradouro e cultivado, que acompanhou lado a lado da descoberta da sexualidade da protagonista, que conseguiu gerar uma intimidade que alcança o coração do público. 

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O que chega ser um tanto quanto poético, trazer algo tão consistente após explorar tanta tristeza e a maldade dos humanos. Porque caso você não saiba, nessa série não há vilões ou mocinhos, há sobreviventes (ainda que insanos) e a crueldade personificada. E isso não quer dizer que também haja um final feliz.

Por fim, posso concluir que “Ratched” é mais uma obra de grande qualidade de Ryan Murphy. Aos fãs de suas obras anteriores, garanto que não irão se decepcionar. E aos que conheceram agora o trabalho de Murphy, aposto que vocês ao fim ficarão com gostinho de quero mais…e encontrarão em outras obras similares do mesmo criador.

“Ratched” está disponível na Netflix e conta ao todo com 8 episódios de mais ou menos 1 hora de duração cada.

Nota: 4,1/5

Autor do Post:

Ludmilla Maia

Concurseira formada em Direito, estudante da U.A, protegida da Annalise Keating, cantora amadora dos New Directions, sobrevivente da ilha de Lost, parça do Bojack, e uma Amazona perdida que ouve KPOP e assiste muito drama asiático.

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