3T INDICA | BoJack Horseman: um drama reflexivo sobre o ato de viver

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OBS: Essa singela indicação refere-se apenas às 3 primeiras temporadas show. Eu ainda estou na metade da série, mas achei tão boa que merecia uma indicação precoce aqui no site. Contudo, só ouvi elogios sobre a 4ª, 5ª e 6ª temporadas, então estou esperançoso com o final; ainda mais depois de ver o que a crítica especializada falou das temporadas finais. Em breve, a parte II em forma de crítica.

BoJack Horseman é uma raridade. Um desses shows tão difíceis de serem encontrados e únicos à sua própria forma. Não pelo humor ácido, muito menos pelos temas pesados e com certeza não pela criatividade de sua premissa, mas por misturar tudo isso de um jeito incrível, tocante e singular. “Existem 500 produções por aí afora que misturam comédia com drama. O que diferencia esse desenho?” Bem, senta um pouquinho que eu vou tentar te falar sobre como a história de BoJack não é apenas uma série: é uma experiência de vida.

Primeiro, a sinopse: BoJack é um cavalo (sim, é desses desenhos onde os bichos falam) que participou de uma sitcom (uma daquelas séries de comédia com plateia pra rir, tipo Friends) nos anos 90. Desde então, ele não arrumou nenhum trabalho decente e passa seus dias tentando desvendar alguns mistérios sobre a depressão e o existencialismo no fundo de garrafas de uísque, em carreiras de cocaína e em rapidinhas na sua mansão. Definitivamente não é um desenho qualquer.

Asitcom dentro da série, chamadaHorsin’ Araound. A criatividade e o cuidado dos roteiristas é admirável!!

Como eu disse, a série possui um humor bastante ácido. E brinca com temas bastante pesados através da história de vida do BoJack e dos personagens ao redor do cavalo. Porém, realiza o louvável feito de ter responsabilidade ao lidar com temas como a já citada depressão, problemas de autoestima e insegurança, problemas paternais, fuga da realidade, escolhas de vida, autoconhecimento, amizade e muuuuuitos outros.

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A série cria não somente um, mas vários personagens tão complexos e com tantas camadas de profundidade que o espectador consegue criar um vínculo palpável com todos ali. Todos os traumas deles ligam você a pelo menos um dos personagens, o que faz você torcer por ele e se preocupar com suas decisões. É algo difícil de se fazer. E nessa série, fizeram aos montes.

O episódio 11 da 3ª temporada acabou comigo de um jeito que… Ai Gabby, só quem viveu sabe

Como na maioria das produções do streaming vermelhinho, não poderiam faltar as críticas sociais quaaaaaase ocultas. De início, a série esconde seu posicionamento em questões polêmicas por trás de pequenas falas e atitudes dos personagens que mais nos fazem rir do que refletir. Porém, preste atenção no contexto de todos os detalhes depois de rir (e de rir bastante; a série é cheia de sacadas geniais que apenas os olhos mais detalhistas conseguem pegar!) e reflita sobre nossa sociedade.

Da segunda para a terceira temporada, as críticas tornam-se mais explícitas, são feitas de jeitos absurdos e são hilárias! Mas em alguns momentos, ela mais toca na ferida social do que no humor. Isso não é um demérito. E também não é feito de um jeito irritante: é gostoso parar pra pensar junto dos personagens. Isso é, exceto quando a crítica é feita com apenas uma fala. Em vários momentos, peguei-me atrasado para rir da próxima piada pois estava pensando numa reflexão que algum personagem soltou no ar de forma trivial. Eu adoro isso!!

Diane Nguyen: eu nasci pra te amar. E pra amar suas críticas.

E falando neles, os personagens são extremamente cativantes. Falo isso sem medo de ser feliz! Eles não são cativantes por possuírem o auge do carisma, mas por serem pessoas reais (incluindo os animais falantes). Todos ali cometem erros, evoluem e aprendem com suas próprias histórias. E isso meio que nos ensina sobre nossas próprias ações e escolhas, só que de um jeito tão natural, suave e real… É quase como sentar e conversar com um terapeuta. Sim, ver essa série é como sentar pra conversar com um terapeuta. É uma das coisas que mais gosto aqui: frequentes lições de vida e episódios emocionantes são o que mais chamam atenção na série.

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O toque de celular do BoJack adquire um significado tão triste ao longo da série

Há tantas questões sociais envolvidas no show. Problemas extremamente profundos, mostrados de um jeito que pode ser considerado pesado. Inclusive, fica o alerta aqui: apesar de a série sempre conter um teor positivo sobre como a vida continua e nada consegue ser tão irremediável, vários momentos podem funcionar como gatilhos emocionais. Algumas reflexões são tapas tão fortes na sua cara que você pode começar a pensar demaaaais na sua vida. Esse é, basicamente, o intuito da série: fazer o espectador refletir sobre sua vida. Mas tenha cuidado no caminho. Pensar demais faz mal.

Depois de tudo isso, ainda não falei sobre minha parte favorita no show: os diálogos. Não são diálogos gigantes como os visto nos filmes de Quentin Tarantino, mas são diálogos incríveis. Curtos, objetivos e dramáticos ao ponto de me fazer pausar o episódio pra absorver aquilo. A série está repleta de pequenas frases que vivo postando nos stories do meu Instagram desde que comecei a assisti-la. Essa série é um prato cheio para estudantes e profissionais da psicologia. E também pra quem não tem dinheiro pra um psicólogo. Brincadeirinha, valorizem a saúde mental de vocês acima de QUALQUER coisa!

E vamos de verdades na cara!

Por fim, eu fiquei bastante impressionado com o elenco convidado para participar do show quase que de forma regular. Os roteiristas adoram fazer piadas que brincam com a metalinguagem, sempre com pontadas certeiras para o mundo televisivo e cinematográfico; e, para isso, várias celebridades foram convidadas para uma pontinha na série: Daniel Radcliffe (sim, o Harry Potter), Jessica Biel (de The Sinner, também da Netflix), Felicity Huffman (de Desperate Housewives) e muitas outras! Além de também darem “leves” cutucadas em celebridades de fora da série. (É nessa hora que eu limpo a garganta com uma tossida falsa).

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Bem, eu já falei até demais para uma série que nem terminei! São apenas 6 temporadas de 12 episódios de mais ou menos 25 minutos, mas que conseguiu a façanha de ter 5 temporadas acima de 96% de aprovação no Rotten Tomatoes (exceto a primeira temporada, onde os roteiristas ainda estavam testando o humor e tal; mas ela ainda consegue prender o espectador mesmo com “apenas” 67% de aprovação). A terceira temporada é uma das melhores produções televisivas que já vi, com um dos melhores finais da televisão. E ainda, como o próprio pôster brinca, utiliza inspirações como Donald Draper (MAD MEN) e Tony Soprano (The Sopranos).

A piscina de BoJack também adquire um significado triste. Enfim, coloque o psicólogo na discagem rápida ao assistir essa série incrível.

Eu ainda nem terminei e já estou com saudades. It takes a long time to realize how truly miserable you are. Even longer to see it doesn’t have to be that way.

P.S.: Essa citação me pega de jeito sempre que lembro dela.

P.S.2: A abertura da série é uma das coisas mais depressivas que já vi.

Nota: 4,7/5

Autor do Post:

Matã Marcílio

https://instagram.com/mat_marcilio/

Um pré-fisioterapeuta nordestino que, perdido no mar das incertezas, fez das palavras seu refúgio. Um pouquinho mais de duas décadas de leitura e sedentarismo causado pelo prazer de deitar em frente a um espelho negro e observar toda a glória do homo sapiens ao escapar da realidade terrivelmente entediante. “Jojo Betzler. Hoje, só faça o que puder.”

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