RESENHA | “Jackpot” vem com risadas gostosas e tapas dolorosos

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Indo direto ao ponto, sem fazer rodeios: “Jackpot”, da editora The Gift Box, é um dos melhores livros que li em 2020. E isso fez com que Nic Stone entrasse no meu hall de autores/autoras preferidos (as), mesmo que eu só tenha lido esta obra dela – mas fiquei com vontade de ler as outras. E há vários motivos para isso, o que vai desde a construção da personalidade dos personagens até a forma de desenvolvimento da história.

Iniciando por coisas básicas, o desenvolvimento que Stone dá para a história é rápido. O livro não conta com 300 páginas e milhares de coisas acontecem – e com profundidade. Ela consegue escancarar problemas sociais/raciais, dar personalidade aos protagonistas, desenvolver suas histórias principais e secundárias, me fazer gostar ainda menos do sistema de saúde estadunidense, entre outras coisas.

A ambientação de toda a história também é sensacional. O livro é basicamente protagonizado e visto pela perspectiva de Rico – a principal personagem. Nic Stone domina, durante toda a obra, as mudanças de tom variando do local no qual a personagem está inserida e com quem ela está falando.

Inclusive, por falar não apenas na Rico, mas nos personagens em geral, achei impossível não amar e odiar todos, dependendo da situação. Há livros nos quais os personagens são tão perfeitos que se tornam irreais, intocáveis, divindades na Terra. Em “Jackpot”, não. 

De Rico a Zan, todos têm qualidades e defeitos e todos contam com certo espaço para desenvolvimento – talvez com exceção de Ness, que tem um papel mais importante como namorado-de-Jessica e melhor-amigo-de-Zan do que tendo uma personalidade construída.

Após falar dessas questões, digamos, “mais básicas”, vou abordar as questões e reflexões que o livro me trouxe. Claro que tudo isso sob a perspectiva de um homem branco – eu -, enquanto a obra é protagonizada e traz as reflexões de uma jovem negra.

Primeiramente, explicando o título desta resenha: eu dei excelentes risadas com “Jackpot”. Teve momentos que ri, outros sorri e em outros em gargalhei. Principalmente quando envolvia referências a filmes – “Star Wars” e “Náufrago” são dois deles. Por outro lado, eu tomei uns bons tapas na cara, fiquei em choque e tirei um tempinho para refletir.

Rico é filha de uma mãe solo e irmã mais velha de um garotinho. Essa mãe, para permitir que os filhos estudem em boas escolas públicas, se esforça em dois empregos – e conta ainda com o trabalho de Rico – para conseguir pagar o aluguel de um apartamento em uma zona acessível, porém boa da cidade. (Vale a pena lembrar, como a própria edição da The Gift Box destaca, que nos EUA as escolas nas quais o aluno poderá estudar tem relação direta com a região na qual ele mora – ou seja, possivelmente, o quanto pior você mora, pior é a escola).

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Grande parte dos problemas do livro, inclusive, tem relação direta com o dinheiro, como é deixado claro até mesmo no título da obra – “Jackpot”, que é uma loteria nos EUA. A loja na qual Rico trabalha vendeu um dos bilhetes vencedores na véspera de Natal. E Rico começa uma aventura para conseguir encontrar a compradora, que não foi resgatar mais de US$ 100 milhões.

Esta aventura traz um grande acerto: colocar lado a lado Rico – negra, pobre, isolada socialmente e lotada de responsabilidades – e Zan – multimilionário, atleta, “teoricamente” branco (para entender esse “teoricamente” será preciso ler o livro – lembrando que a branquitude aqui falada é sob a perspectiva estadunidense) e superpopular no ensino médio daquele país. Parece clichê, certo? E até é, em certo ponto. Mas o livro vai muito-demais-bastante além deste ponto.

Isso porque, obviamente, essas diferenças financeira e social entre os protagonistas entram em conflito milhares de vezes. Rico preocupada em unir o seu salário ao da sua mãe para conseguir comer e ter um teto. Zan não tem essas preocupações, mesmo destacando, mais tarde, que o seu pai é rígido com as finanças. Isso coloca os personagens em lados opostos desta balança irreal. Por mais que ambos tenham seus problemas, são questões diferentes.

Inclusive, para demonstrar o quão irreal é essa discrepância financeira, Nic Stone dedica um curto capítulo para falar diretamente o quão benéfico um prêmio milionário de loteria poderia ser para milhares de famílias. Em um trecho deste capítulo, é explicado que o valor seria o suficiente para alimentar “uma família de seis pessoas que vive em Chad por mais de quarenta mil anos. (Ou 4.077 famílias de seis pessoas por uma década cada)”.

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Ainda nesta questão financeira (prometo – tentar – não me estender por demais nela), “Jackpot” aponta vários problemas. Como base, o principal problema é o fato de se precisar do dinheiro de forma básica para ter a mínima qualidade de vida. Mas outras duas questões primordiais também são destacadas: não ter dinheiro/ter milhões de dólares à disposição da noite para o dia; e quanto ter MUITO dinheiro pode criar uma barreira de (falta de) confiança com outras pessoas. 

Mesmo com toda essa preocupação financeira, Nic Stone não deixa o leitor esquecer que se trata de personagens adolescentes, muitas vezes com hormônios à flor da pele, e com problemas sociais também referentes à idade. Um exemplo claro sobre isso é a relação entre Rico e Jessica, uma líder de torcida loira, que é sua vizinha. Rico a via de uma forma, com direito a todos os estereótipos que possa imaginar, até conhecê-la. O mesmo acontece na relação Rico-Zan.

“Jackpot” traz diversos debates atuais, como abordar microagressões, relacionamento interracial, racismo e, até mesmo, xenofobia. O livro também tem o cuidado de diferenciar os problemas de cada um dos personagens – mas não os diminuindo, apenas encaixando-os na perspectiva de cada uma das realidades. Isso fica muito claro em momentos distintos, tanto quando Rico fala que não tem escolhas quanto quando Zan diz o mesmo.

Outra questão abordada é o fato de “se descobrir como uma pessoa negra”. Há um momento específico no livro que Rico traz esta reflexão, utilizando até mesmo uma boneca loira de olhos azuis como objeto de desejo (alô, importância da representatividade) e um diálogo com a sua mãe, ainda na sua infância, sobre esse brinquedo. E eu queria MUITO me estender nesse assunto usando como base este momento da obra – que inclusive marquei no meu livro -, mas é tão interessante que eu realmente sugiro que leiam. Vou dar até a coordenada exata: página 66 da primeira edição da The Gift Box.

Por fim, é difícil apontar o que eu mais gostei na obra, sinceramente. Foram muitas coisas, desde as que me fizeram sorrir até as que me deram tapas na cara. Amei, até mesmo, as que me fizeram chorar. No entanto, eu ACHO que o que mais me apaixonei na obra de Nic Stone foi a relação Rico-Zan, até porque é ela que dita o ritmo do livro.

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Os momentos mais divertidos são com os dois personagens – às vezes, Rico-Jessica, mas enfim. Os momentos de debates mais profundos e dolorosos são com esses dois personagens – apesar de que Rico-Jessica e Rico-Mãe (esqueci o nome dela) também merece um grande destaque. Há, até mesmo, momentos que você está shippando os dois e, páginas depois, torcendo contra (me perdoem, não é o assunto principal do livro, mas sou romântico, então deem-me licença).

Claro, não há apenas elogios ao livro. Por mais que a relação Rico-Zan tenha sido construída ao longo de toda a obra, iniciando já nas primeiras páginas, a aproximação dos protagonistas em determinado momento pareceu apressada – um desses momentos, inclusive, foi o início desta relação. Isso interfere em algo na qualidade do livro e nas reflexões que o mesmo traz? Não. Mas poderia ter sido melhor trabalhada.

“Mas, Henrique, você gostou tanto assim do livro?”. Olha, na primeira vez que peguei a obra para ler, foram 115 páginas (não muito mais do que minha média diária de leitura, mas ainda assim, acima). Porém, quando eu comecei a ler após essas 115 páginas, eu não consegui mais parar. Fui interrompido para almoçar e ir ao dentista, mas na volta eu já peguei o livro e terminei, pois não aguentava mais esperar. E, sério, isso é bem raro para mim. Costumo ler apenas no período da manhã.

Para finalizar: LEIAM “Jackpot”. Isso nem é um pedido, é uma ordem mesmo. E digo isso em referência a um bastante satisfatório momento do livro no qual Rico destaca como Zan está acostumado a mandar e fazer as coisas como quer, sem pedir permissão. Sério, Nic Stone tem uma escrita dinâmica, passando rapidamente e com maestria por diferentes assuntos. “Jackpot” é divertido e doloroso, o que o faz extremamente maravilhoso e necessário – e já estou com vontade de ler novamente.

Autor do Post:

Henrique Schmidt

O louco dos livros, filmes, séries e animes. Talvez geek, talvez nerd, talvez preguiçoso, mas com certeza jornalista

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