CRÍTICA | The Undoing não é só mais uma investigação criminal

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O novíssimo cenário televisivo criado e produzido para que Nicole Kidman brilhasse embaixo do símbolo da HBO (mais uma vez) terminou recentemente sua exibição de apenas 6 episódios. Trazendo mais uma adaptação de um suspense literário repleto de temas pertinentes para a sociedade, The Undoing audaciosamente reúne a premiada atriz supracitada a Hugh Grant e Donaldo Sutherland em um mistério que joga a “batata quente” da culpa de mão em mão para que você, espectador, tente adivinhar quem a cozinhou. Mas será que há inovações o suficiente para que a história se sobressaia em cima de outros milhares de contos literalmente iguais? Vamos analisar.

Nada permanece escondido. Chega arrepia, né?!

The Undoing mostra a vida da terapeuta Grace Fraser (Nicole Kidman) que vê sua vida literalmente se desfazer (tendeu o título agora?) quando uma das mães da escola de seu filho é encontrada violentamente morta em seu estúdio de arte e o principal suspeito do crime é seu marido, Jonathan Fraser (Hugh Grant), um renomado oncologista pediátrico.

Enquanto sua vida de luxo começa a se despedaçar em torrentes de desespero televisionado para todo o país, Grace começa a descobrir que seu marido não é quem ela realmente achava que ele era. E seus instintos profissionais e maternos são postos à prova quando questiona tudo o que ela acreditava saber sobre sua família.

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Nicole Kidman está perfeita. É isto, não há surpresas. Seu desempenho aqui é previsível: sua atuação forte e intensa, digna de um longa-metragem, é, certamente, o que faz a HBO sempre dizer “sim” para a atriz premiada. Dentro de uma história “simples”, Nicole entrega uma mãe de família transtornada com acontecimentos recentes que a fazem duvidar de uma das pessoas mais importantes de sua vida. E, apesar de já termos visto algo parecido em uma centena de outras produções, é impossível não perceber como ela domina a personagem e aparenta uma naturalidade digna de realismo puro.

Colocado o óbvio para fora da mesa, podemos falar das outras estrelas que foram uma surpresa pra mim. Donald Sutherland está simplesmente impecável no papel secundário que lhe foi oferecido. Sua performance caracteriza um pai e um avô protetor merecedora de um prêmio por sua habilidade de fluir do carinhoso para o assustador.

HBO, obrigado pela escolha de um elenco sempre impecável

Sua proteção parental não tem limites e, para mostrar com isso com eficiência e praticidade, este homem entrega uma cena que o distancia vertiginosamente do Sr. Bennet (de Orgulho e Preconceito) e faz o presidente Snow (de Jogos Vorazes) parecer um idoso necessitado de cuidados paliativos. Tal cena deixou o redator que vos fala todo cagad* até hoje e, simplesmente, sem palavras.

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E, para finalizar minha entusiasmada “rasgação” de seda, preciso falar da maior surpresa que essa minissérie nos forneceu: a volta de Hugh Grant. Quem diria que o par romântico de Julia Roberts em Notting Hill conseguiria fazer uma performance tão INCRÍVEL em uma obra de suspense?! Sua desenvoltura ao interpretar um médico com as nuances de Alex Karev e, ao mesmo tempo, o suspeito de um crime hediondo é intrigante e hipnotizante. Era uma briga no meu inconsciente para saber pra quem eu olhava mais: Hugh ou Nicole? Seus pequenos hiatos esparsos no mundo cinematográfico fizeram-lhe muitíssimo bem: o homem voltou com tudo!

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Sobre o interior da minissérie, posso falar por horas! Sua trama simples de investigação é exatamente o que parece à primeira vista: carrega todos os elementos de outras tramas já conhecidas e os clichês criados pelos mistérios noir do cinema do século XX. Entretanto, o que a faz se distanciar da generalidade é sua habilidade de contar um mistério e a, claro, a originalidade na escolha dos temas abordados.

É simplesmente viciante ficar em frente ao seu dispositivo de reprodução de mídia e ver essa história se desenrolar aos poucos. A habilidade dos roteiristas de revelar detalhes comprometedores vagarosamente é visceral! E, diante do histórico de adaptações literárias da HBO, não tenho dúvidas da fidedignidade à obra original, o que me faz querer parabenizar a autora do livro (Jean Hanff Korelitz) e os roteiristas da série: certificado de mente perturbada adquirido com sucesso! A gigantesca dona das produções mais aclamadas da televisão não decepciona nunca (quase nunca, né GoT?!).

Quanto aos temas, pode ser um pouco revelador discutir isso aqui, então o farei de forma superficial. Ao longo dos episódios, a pequena adaptação cutuca feridas sociais de forma bem sutil. Mas em alguns momentos, de forma não tão sutil assim. Como um exemplo, logo no primeiro episódio vemos gente extremamente rica brigando num leilão por um copo de água que termina custando milhares de dólares.

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A estupidez ostentativa da classe social “superior” parece ser o ponto de irritação mútua e de ligação com o público que muitas produções atuais buscam para criar laços com a audiência. “Olha, nós achamos gente rica ridícula”. Em outro momento, a advogada do Dr. Fraser mostra como vantagem para seu caso a sua fisionomia e beleza superficial. Supostos assassinos brancos e bonitos geram uma boa (??) propaganda para o caso e não são facilmente presos. Terrivelmente real.

Preste bem atenção nas roupas de Grace quando for assistir à minissérie. Sua aparência é o complemento de tudo o que se passa na cabeça dela!! Todos os detalhes foram bem pensados.

Apesar de temas mais “à margem” para a trama, percebemos que o centro de tudo foge das críticas sociais. O enredo procura incomodar o espectador com a possibilidade de que a pessoa que mais amamos não é quem temos na cabeça. E se as supostas ações de sua/seu parceira/o destruíssem sua vida sem você perceber? Até onde vai a fé que você deposita no seu esposo? O quanto você confia na palavra da sua namorada? Para mim, a situação de Grace chega a ser causadora de calafrios. Sentir sua vida descer por um redemoinho numa tempestade marítima e não saber em quem se segurar: há coisa mais aterrorizante?

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Dessa forma, aviso com louvor: não é apenas uma minissérie sobre uma mulher rica numa investigação de homicídio, mas um thriller psicológico digno de Alfred Hitchcock que se camufla de investigação e entrega o desfazer literal de uma majestade coroada por seu cabelo longo e vermelho que, aos poucos, torna-se tão preso quanto sua dona, em meio às mentiras e perdas emocionais. E é com um grande pesar que falo sobre o fim: é bem broxante. Até a metade do último episódio, vi-me preso naquela espiral rodeada de possibilidades para todas as perguntas.

A grande revelação é feita de um jeito simples, mas efetivo e até desconcertante. A violência gráfica contida nos minutos de tela revirou o estômago deste ruivo, mesmo sendo mostrada aos poucos pela imaginação de Grace ao longo da série. Mas os minutos finais do episódio clímax foram uma verdadeira decepção. Poderiam ter prolongado mais, ter criado mais diálogos interessantes e oferecido um desenrolar mais agridoce. Entretanto, a minissérie preferiu ser mais pragmática com seu findo, e ofereceu um desmanchar “qualquer coisa” que se sustenta apenas na revelação do grande mistério. Um final ambíguo no carro teria sido mais gostoso do que esse chiclete que perdeu o gosto repentinamente.

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O verde e o vermelho estão bem presentes durante o show. Consegue dizer aí embaixo o porquê?

No mais, não existem mais reclamações. O clássico presságio verborrágico falado (ou, costumeiramente, ouvido) pela personagem principal, o qual descreve exatamente todo o âmbito central da trama como um aviso premonitório e irônico, é um clichê presente aqui na obra e foi brilhantemente executado. Merecia até uma tirinha nessas páginas de cinema (tipo a nossa, né; enfim, a preguiça), pois é um baita tapa nas pessoas que se iludem com projeções sobre os outros (taurinos e piscianos, essa foi pra gente). The Undoing talvez não receba toda a atenção que merece, o que é uma pena. Dentre tantas produções lançadas anualmente por serviços de streamings sedentos por grana, essa pequena produção é um verdadeiro achado que não foi tão divulgado.

Nota: 4,5/5.

P.S.: Lilly Rabe (a Misty Day de AHS Coven e participante assídua das outras melhores temporadas de AHS) participa da minissérie também!! Essa mulher é perfeita e merece mais papéis que exijam seu potencial dramático. Mesmo sendo uma personagem secundária, ela tem sua cota de notoriedade por dar vida a uma rica irritante. Por mais papéis dela na HBO.

Autor do Post:

Matã Marcílio

https://instagram.com/mat_marcilio/

Um pré-fisioterapeuta nordestino que, perdido no mar das incertezas, fez das palavras seu refúgio. Um pouquinho mais de duas décadas de leitura e sedentarismo causado pelo prazer de deitar em frente a um espelho negro e observar toda a glória do homo sapiens ao escapar da realidade terrivelmente entediante. “Jojo Betzler. Hoje, só faça o que puder.”

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