“Areia Movediça” é ótimo, mas inconstante

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Faz uma hora que eu terminei de ler “Areia Movediça”, da sueca Malin Persson Giolito, publicado no Brasil pela Intrínseca, e ainda não sei definir exatamente o que sinto em relação à obra. De antemão eu já deixo claro duas coisas: não é uma obra agradável de ser lida e eu teria abandonado a leitura antes da página 100 se eu não quisesse tanto ver a série da Netflix.

O livro começa com uma sala de aula com pessoas baleadas, onde todos os presentes foram atingidos, menos Maja, a protagonista, que diz não ter sofrido nenhum arranhão. Ao longo da história, vemos Maja, de 18 anos, presa por nove meses, enquanto esperava o julgamento pelo ocorrido. A obra vai intercalando os momentos do passado, que antecedem os tiros disparados na sala de aula, partes na prisão feminina, partes no julgamento e o momento do ocorrido que a levou à prisão. Afinal, culpada ou inocente?

Eu passei, pelo menos, três dias tentando “entrar” neste livro. A obra conta com cerca de 350 páginas, mas eu só consegui me ver por dentro da história após umas 100 páginas – basicamente eu demorei três dias para alcançar a página 100 e outros dois para finalizar o livro. Isso dificultou muito a minha experiência inicial. A história estava chata, maçante, parecia que não saía do lugar. Sabem quando vemos um cachorro dando a volta atrás do próprio rabo? Foi mais ou menos assim que eu me senti lendo, mas sem a parte divertida.

No entanto, quando eu consegui entrar na história, poucos momentos foram os que saí dela, mais por causa da confusão de sentimentos da protagonista/narradora do que pela forma que a história estava sendo contada. Infelizmente, é uma escrita cansativa e, por vezes, entediante, mesmo sendo contada de uma forma não-linear, com idas e vindas do presente para o passado. Você realmente precisa insistir para continuar na obra – mesmo que a sua curiosidade também o mantenha na história.

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Por outro lado, o ponto alto da escrita é fazer com que o leitor se sinta desconfortável em determinados momentos. À medida que o livro vai se aproximando do fim, o mal-estar se instala permanentemente, o estômago embrulha, tudo vai ficando melhor e mais difícil de ser lido. E o mérito é, basicamente, todo da protagonista e da autora, que realmente confronta o leitor, sem pudor. Isso é uma das coisas mais interessantes – o que resultou em diferentes marcações/sentenças grifadas no meu livro.

Em termos de personagens, eu não me apeguei a nenhum em todo o livro. Nem mesmo a protagonista, de quem me aproximei em alguns momentos. Achei todos eles chatos, o que, para mim, os tornou mais humanos e palpáveis. Tornou a experiência de leitura mais real. Já estou meio cansado de personagens perfeitamente bons ou perfeitamente maus. Como bem foi dito em determinado momento – e eu vou cortá-lo um pouco para não ser spoiler:

Não foi minha culpa. Eu sou inocente. Ou foi minha culpa. Eu sou culpada”, disse Maja, a protagonista, em determinado momento.

E, querendo ou não, essa frase, principalmente por ter sido dita/pensada em um tribunal, me lembrou uma sentença de Friedrich Nietzsche (sim, eu copiei o nome dele, pois já desisti de tentar escrever certo): “Não há fatos, apenas interpretações” – e acho que isso resume boa parte do que acontece em toda a obra, principalmente no que diz respeito ao julgamento.

Um dos principais temas do livro são os relacionamentos abusivos. Tanto em termos de amizade quanto em questões familiares e amorosas – o que mais se destaca, principalmente por ser o que dita o ritmo da obra. Porém, se isso chama a atenção pela obviedade, assim como o também conflituoso e doentio relacionamento entre os Fagerman, peço que também se atentem a todo o entorno que fazem com que a protagonista Maja parta diretamente, sem retorno, para a autoculpabilização em diferentes situações.

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Me atendo ao tema relacionamento abusivo, eu gostei muito de uma passagem da obra, que deixarei abaixo, justamente sobre a relação de Maja e Sebastian. Mais uma vez, farei cortes para não dar spoiler a ninguém. 

“[…] Foi doce no início, mas depois foi como açúcar de confeiteiro derretendo na língua, ficou preso ao palato, encheu a boca de bílis amarga e eu vomitei […]”.

E eu poderia destacar diferentes outros momentos de todo o livro, fora relacionamento abusivo, que eu achei definitivamente interessante. Por exemplo, como a hipocrisia da sociedade é tratada, racismo, preconceito com imigrantes e questões econômicas.

Como o livro é narrado em primeira pessoa, a hipocrisia se torna tema em diferentes momentos em que Maja, a protagonista, confronta o leitor, meio que o desafiando. Há partes em que esse diálogo é mais direto, enquanto em outras é feita mais em pensamento. Para não colocar um parágrafo enorme e inteiro, que foi um dos momentos que eu mais gostei, vou pegar uma outra parte pequena, que também resume bem como Maja foi julgada pela sociedade antes do julgamento judiciário.

“[…] As pessoas não estão interessadas no que as outras dizem ou pensam, pelo que elas passaram e a quais conclusões chegaram. As pessoas estão interessadas em ouvir apenas o que acham que já sabem”. 

Já em termos de racismo e preconceito com imigrantes, os principais protagonistas são Dennis, de Uganda, e Samir que, salvo engano, é de uma família iraniana. E é interessante o contraponto que é feito entre os dois personagens. Enquanto Dennis não é querido e convive em um ambiente questionável, Samir é inteligente, um dos melhores da turma, e querido pelos amigos – menos por Sebastian. 

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Em questões econômicas, eu não vou me estender para não entrar em um viés político e nem correr o risco de falar coisas rasas. Porém, destaco um rápido debate envolvendo uma economista, o multibilionário Sebastian e o humilde Samir. Neste momento, o debate sobre a imigração e as questões econômicas se encontram, afinal, como deixado claro naquele momento, os imigrantes são “usados” como bodes expiatórios para o que realmente pode vir a ser o problema econômico, neste caso, da Suécia.

“Areia Movediça” é um livro interessante. Após escrever tudo isso, chego à conclusão que eu realmente gostei da obra. A achei cansativa? Sim. Achei que poderia ser menor? Sim. Teria desistido da leitura se não quisesse assistir a série da Netlix? Sim. No entanto, valeu a pena insistir e chegar até o fim deste ótimo livro.

Autor do Post:

Henrique Schmidt

O louco dos livros, filmes, séries e animes. Talvez geek, talvez nerd, talvez preguiçoso, mas com certeza jornalista

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