CRÍTICA | Nomadland conta uma história real e invisível

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Nomadland é um filme estadunidense que estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2020. Ele é dirigido, roteirizado e editado pela magnífica Chloé Zhao, que se baseou no livro “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century” da autora Jessica Bruder.  A produção ficou por conta de Frances McDormand, Peter Spears, Mollye Asher, Dan Janvey e também Chloé Zhao, sendo distribuído pela Searchlight Pictures.

Nele acompanhamos a trajetória de Fern, interpretada por Frances McDormand, que é uma mulher por volta dos 60 anos que, assim como muitos personagens do filme, perderam seus empregos e casas com a crise econômica de 2008 e passaram a viver onde dava: nos seus carros, em barracas na rua, debaixo de pontes. Ela passou a viver como uma nômade moderna, vivendo e viajando pelo país em seu carro, deixando seus pertences que restaram num depósito e vivendo dia após dias em empregos temporários que pagam apenas o suficiente para que ela sobreviva.

Fern (Frances McDormand) emNomadland, 2020.

É uma amostra das consequências de um “sonho americano”, onde você tinha que ter uma casa e uma família. Mas junto com o sonho da casa, na maioria das vezes, vem a famosa hipoteca, como vemos em muitos filmes, séries e livros que retratam o estilo de vida norte-americano. Quando você não tem mais condições de pagar a sua hipoteca, nenhum banco ou instituição financeira vai se compadecer de você, eles só vão tomar o que é deles por direito, que nesse caso são as casas das pessoas.

Claro que nem todas as pessoas do filme estão nessa vida nômade por terem perdido tudo, algumas escolheram viver assim para poderem viver suas vidas ao máximo, para alcançar a liberdade ou para esquecerem suas dores por perdas importantes.

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O livro que inspirou o filme conta histórias reais e a diretora fez questão de convidar os personagens reais do livro para participarem do filme interpretando a eles mesmos. Eles são pessoas em sua maioria com mais de 60 anos e contam suas histórias de como chegaram aonde estão hoje. Alguns contam que perderam tudo, outros que por conta da crise sua tão sonhada aposentadoria era tão pequena que não daria para viver com aquilo. E alguns estão ali pelo que chamam de novo “sonho americano”, que é a busca pela real liberdade.

Nesse último caso, o filme me lembra um pouco o filme Na Natureza Selvagem de 2007, quando um jovem abre mão de sua vida privilegiada e sai em busca de aventuras para conhecer as belezas que o mundo oferece.

Nomadland (2020).

Não sabemos qual dessas situações aconteceram à Fern. Sabemos que ela foi casada e que seu marido morreu, que ela perdeu seu emprego, mas que ela ainda tem família, uma irmã e uma casa se ela quiser. Vemos que escolhas são apresentadas a ela, que ela gosta de ser nômade, mas que em momentos em que lhe é oferecido viver novamente em uma casa, ela fica balançada. Só o que fica claro para o telespectador é que a Fern aproveita. Ela vive o momento que lhe é oferecido porque é o que ela tem.

É um filme minimalista, que se importa mais em mostrar o estilo de vida em si do que oferecer um drama super complexo com cenas complexas como seria num filme considerado “grande”. Sua história é sem um início meio e fim definidos, sem marcas de passagem do tempo além da mudança das estações do ano e que apresenta uma trama assustadoramente real, já que qualquer um que viva de aluguel ou que tenha sua casa financiada ainda não quitada corre o risco de perder tudo.

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Reunião em volta da fogueira dos nômades emNomadland (2020).

O filme está indicado ao Oscar em 2021 em 6 categorias: Melhor Filme (favoritíssimo), Melhor Direção para Chloé Zhao, Melhor Atriz para Frances McDormand, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Montagem e Melhor Fotografia. Com esse filme, Zhao pode levar 4 estatuetas para casa.

As indicações são todas merecidíssimas. Nomadland é um filme que foi rodado com pouco mais de 5 milhões de dólares, o que é considerado uma micharia quando se trata de cinema, mas aqui temos uma obra magnífica. Não é um filme para todo mundo, ele não apresenta grandes reviravoltas ou cenas que abalam uma sala de cinema e arranca reações animadas ou algo do tipo. Não. Mas com certeza ele vai te arrancar lágrimas quando a todo momento ele te lembrar que isso tudo é real.

Fern (Frances McDormand) emNomadland, 2020.

As atuações do elenco são magníficas. Com exceção de Frances McDormand, todos interpretam a si mesmos nesse filme. A atuação de Frances é tão intimista que todo o filme parece que ela é mesmo uma nômade e que todas as cenas não passam de filmagens casuais de conversas. Ela se entrega de um jeito incrível aqui, sem maquiagem, sem glamour nenhum, o que não é nenhuma surpresa para quem acompanha seu trabalho. As cenas onde ela está sozinha falam muito sem ter uma palavra dita, como quando ela nada nua num rio ou quando ela está na beira de um penhasco admirando a paisagem. Não sei se ela ganha o prêmio de Melhor Atriz, mas ela merece muito.

Esse papel era o sonho dela, de acordo com uma entrevista que ela deu à há alguns anos. Ela disse que seu sonho era mudar seu nome para Fern e viver a vida em um trailer depois que completasse 65 anos.

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No restante das categorias o filme também é magnífico. Sua edição e montagem não tem nenhum compromisso com continuidade e mesmo assim garantem uma fluidez única. Sua fotografia é super sensível com quadros tão bonitos que facilmente poderiam ser impressos para uma exposição naturalista.

Nomadland (2020).

A falta de grandes produções no Oscar desse ano nos fez assistir filmes que seriam ignorados e esse é com certeza um dos que seria. O que é uma pena, pois ele traz uma visão de mundo na qual não estamos acostumados, mas que existe.

Infelizmente, no Brasil Nomadland seria lançado no dia 15 de abril de 2021 nos cinemas, mas as salas estão fechadas devido ao agravamento da pandemia da COVID-19 no nosso país. O filme tá disponível na plataforma do Hulu para assinantes

Nota: 4,9/5

Autor do Post:

Jessica Rodrigues

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Darkzera do cerrado tocantinense, engenheira florestal, ilustradora botânica e médica de plantinhas; apaixonada por terror e romances boiolinhas, às vezes podcaster e, definitivamente, louca das plantas e dos gatos.

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