CRÍTICA | ‘Destacamento Blood’ é uma ação com importante viés político

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Com apenas 1 indicação ao Oscar 2021, de ‘Melhor Trilha Sonora Original‘, ‘Destacamento Blood‘ tem sido classificado por alguns como “injustiçado”. Dirigido por ninguém menos que o gênio Spike Lee, o longa de 2020 da Netflix conta a história de quatro veteranos de guerra afro-americanos que lutaram no Vietnã. Décadas depois do fim da guerra, eles retornam ao país em busca dos restos mortais de seu líder e a fortuna em ouro que esconderam.

Cutucando uma ferida aberta dos EUA, a Guerra do Vietnã (isso inclusive pode justificar sua ausência em mais categorias do Oscar 2021), Spike Lee ainda vai mais fundo no conflito e traz “ousadas” questões raciais ao debate, incluindo também “amarelos” no centro dessas discussões. Mais que isso: Spike traz à tona outras Guerras e o conflito entre as versões contadas por cada país. Há um constrangimento entre os personagens de nacionalidades diferentes, uma certa “torta de climão” em diversos momentos causada pelos efeitos da guerra que ainda existem, assim como tensões entre os países.

Há uma “brincadeira” interessante no formato da tela neste filme. Quando o longa passa a tratar do passado a proporção muda e fica menor, a proporção de Super 8 é usada quando os protagonistas se filmam com câmera em mãos e um formato mais livre em cima e embaixo da tela é experimentado quando os personagens estão buscando pelo ouro. 

Além disso, as referências utilizadas durante os diálogos saltam à tela, quebrando a “formalidade” do filme, de forma intencional e positiva. Spike é um diretor criativo, isso se torna visível até narrativamente. E o elenco principal formado pelos excelentes Delroy Lindo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Norm Lewis, Isiah Whitlock Jr. e Chadwick Boseman mantém a trama a todo vapor, com personagens incríveis variando entre o humor e o drama, numa reunião de velhos queridos amigos.

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A trilha sonora competente ajuda a caracterizar os cenários e a atenção com sonoplastia é importante principalmente nas cenas de guerra. Aliás, o longa também é muito competente em mostrar os efeitos da guerra na vida dos soldados que sobrevivem. Os terríveis traumas perduram para sempre até nos sonhos dos veteranos.

A relação deles entre amor e ódio, abraços e brigas, revela muito mais do que todo um filme de ação poderia fazer. Esse é o toque de mestre de Spike Lee: aposta na riqueza dos diálogos e da relação entre os veteranos de forma inteligente, sendo um dos poucos baixos de seu filme a maneira fácil e conveniente como os personagens encontram o ouro (esta trama é só um pano de fundo para tudo o que o longa quer tratar, então é compreensível). Dinheiro, enganações, cenas chocantes, nervosismo e até um tom aventuresco: ‘Destacamento Blood‘ é mais um ótimo trabalho de Lee.

O trabalho não deixa de ser também a jornada dos personagens refletida em passado, presente e para alguns, futuro. A grande furada em que se metem é de ação com muito sangue e contexto histórico. Há até críticas, necessárias, ao Trumpismo – na época em que o filme foi lançado, ainda na presidência, hoje no ostracismo (lugar que merece).

Entre quebras da quarta parede, delírios, frustrações, reencontros, perdas, finais e recomeços, ‘Destacamento Blood‘ aposta num final lindíssimo repleto de significado, e seu maior acerto é seu viés político crítico e reflexivo. Impossível não finalizar esta crítica sem prestar uma homenagem ao saudoso Chadwick Boseman, num personagem que parece misturar ficção e realidade às vezes. Mais um filmaço de Spike Lee.

Nota: 4,6/5

Autor do Post:

Paulo Rossi

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Um sonhador. Às vezes idealista, geralmente pessimista e sempre por aí metido num bocado de coisas. Apaixonado por audiovisual, cearense com baita orgulho e um questionador nato com vontade de gritar ao mundo tudo que acredita.

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