CRÍTICA | Manhãs de Setembro carrega um drama original e emocionante sobre expectativas

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Hoje, dia 25 de junho, a Amazon Prime lançou seu mais novo projeto brasileiro: Manhãs de Setembro. O projeto dramático e recheado de talentos com uma baita representatividade trans carrega ares do aclamado Central do Brasil em seu DNA. E com uma listinha de apenas 5 episódios de até 35 minutos, essa nova série (ou talvez minissérie) viciante exige ser vista com apenas uma sentada de bunda no sofá e certamente vai te render litros de emoção! Vamos destrincha-la?

Na trama bem original, somos apresentados a Cassandra (interpretada pela incrível Liniker), uma mulher transexual que lutou por décadas para conquistar seu lugar no mundo. E tudo vira de cabeça para baixo quando Leide (Karine Teles) retorna à vida de Cassandra apresentando o filho biológico de ambos: Gersinho (Gustavo Coelho). Agora, a cantora e entregadora de mercadorias precisa conciliar seu passado com o presente e tomar decisões que talvez mudem o cenário do seu futuro.

Primeiro vamos pela elogiável parte técnica. A direção de Luis Pinheiro é concisa e direta ao ponto, economizando o tempo já curto da produção com objetividade nos diálogos de “uma linha só”. Há movimentos de câmera realmente incríveis com drones e câmeras dinâmicas que fornecem à tela algo que sempre prende os olhos do espectador. Aliado a isso, a série possui uma fotografia bela e suave, que representa bem o estado geral das personagens e nos dá quadros genuinamente artísticos e bem definidos.

A edição também não fica para trás. Todas as cenas possuem cortes no momento certo, deixando os 5 episódios com um aspecto cinematográfico e bem cortados. Os diálogos também estão no ponto certo: enxutos, simples e sem exposição. A narrativa escolhe os momentos ideais para contar seus detalhes de maneira sutil, sem tratar o espectador como idiota (no sentido literal da palavra).

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A apresentação da personagem de Liniker também segue esse modelo. Sem rodeios, já percebemos as dificuldades de sua vida como mulher trans mas sobretudo como trabalhadora de 2 empregos. Sua paixão pela cantora Vanusa vai além do gostar de suas músicas, incorporando a pessoa Vanusa à sua personalidade e parte integrante de sua identidade. Não somente da personagem, como também da série: a trilha sonora e o título são homenagens à cantora e rimam simbolicamente com as situações das personagens.

Porém, a trilha não se restringe à inspiração da série. Temos acordes de Belchior, Roberto Carlos e até da Companhia Calypso. A maior parte performada por Cassandra com muita emoção, talento e delicadeza. Só que Liniker não se sustenta apenas em seu poderio vocal já consolidado. Como atriz iniciante, a mulher se mostrou um nome de peso, carregando uma carga dramática facial e corporal de dar inveja em muitas atrizes de novela. Seu humor sutil e interação com os outros atores são naturais, crus e espontâneos.

Foi aqui que eu me tornei teu fã,Liniker!

O resto do cast  não fica muito atrás. Apesar de haver alguns momentos fracos para um ou dois atores, todos foram bem escalados. Um adendo para Karine Teles: que trabalho perfeito. Sem exageros na performance e uma desenvoltura no ponto. Sua personagem permeia a malandragem e vulnerabilidade materna com fluidez. Chega a ser difícil crer que ela realmente não é mãe do Gustavo Coelho. E por falar nele, que ator! O garoto nos mostra sua confusão ao confrontar a imagem mental de seu pai biológico com a da mulher real à sua frente com genuína inocência.

Ao mesmo tempo, o fato de Cassandra sentir repulsa à sua prole por lembra-la da pessoa que ela não é mais dá um aspecto multifacetado difícil de ser desenvolvido. Há um clima de atrito entre os dois personagens sustentado com maestria por ambos os atores. Cassandra evolui de forma lenta e processual, tentando assimilar uma criança de outra vida, enquanto seu filho evolui percebendo vagarosamente que seu pai não é de fato seu pai, mas algo que ambos não conseguem ainda por um nome.

Apesar do tempo curtinho, a narrativa possui evolução lenta e bem ritmada, deixando o espectador louco para clicar no “próximo episódio”. O humor, como marca registrada de produções brasileiras, está presente mas foi muuuito bem pontuado. Cheio de ironias e acidez, ele não peca no exagero, lembrando bastante o de Central do Brasil.

Embora possua um tema polêmico, a série não o utiliza como muleta para seu argumento principal. No fundo, a produção da Prime Video retrata o confronto entre dois mundos conflitantes e a quebra da expectativa para aceitar a realidade. Por parte de Cassandra, que jamais está tão sozinha como ela gostaria, e por parte de Gersinho, que procurava uma figura paterna que não mais existe. E isso é o que basta para descrever essa história.

A decisão de deixar a série curtinha foi um acerto e tanto. Cada episódio terminou no momento certo e o fechamento do arco geral da primeira (e espero que única) temporada foi redondinho, emocionante e sutil. Menos realmente é mais.

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Por fim, a série representará com orgulho o Brasil no catálogo gigante da Amazon. A escolha de usar Vanusa como esqueleto narrativo foi muito bem acertada e com certeza fará a cantora parte integrante de algumas playlists no Spotify. Com ótimas atuações, performances musicais, cargas dramáticas e um pajubá muito bem servido, Manhãs de Setembro, também uma música de Vanusa, já é uma das melhores produções nacionais desse ano.

P.S.: quero deixar a menção à atriz mirim Isabela Ordoñez: ela é a coisa mais fofinha do show!

Nota: 4.7/5.0

Autor do Post:

Matã Marcílio

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Um pré-fisioterapeuta nordestino que, perdido no mar das incertezas, fez das palavras seu refúgio. Um pouquinho mais de duas décadas de leitura e sedentarismo causado pelo prazer de deitar em frente a um espelho negro e observar toda a glória do homo sapiens ao escapar da realidade terrivelmente entediante. “Jojo Betzler. Hoje, só faça o que puder.”

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