CRÍTICA | ‘Marmota’ é o pontapé perfeito de Getúlio Abelha

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Do “Forró Pé-de-serra” ao “Forró das Antigas”, passeando pelas mais diversas referências musicais e da cultura pop: esse é o Marmota, disco de estreia de Getúlio Abelha, lançado no último mês.

Composto por 12 faixas, o trabalho apresenta versões novas de músicas conhecidas do artista como Laricado (quase imperceptível que a música mudou), alguns de seus já conhecidos sucessos que ainda não haviam ganhado versão oficial e faixas inéditas. Marmota mostra a força da criatividade de Getúlio, um artista versátil e extremamente inteligente.

Se é loucura, se é personagem, se é doidice não interessa, fato é que cada parte do Marmota parece milimetricamente pensado e calculado – de um jeito ótimo, claro. Bem remixado, masterizado, o trabalho é muito sério e bem construído, bem amarrado e composto. Mais do que qualquer coisa, Getúlio nos convida a entrar em seu mundo, um lugar livre de rótulos, aberto a experimentações e misturas inesperadas. Um mundo colorido e político. E que pode ser possível.

É na brincadeira de “não se levar a sério” que Getúlio dá seu recado. As letras são absolutamente impecáveis, praticamente todas possuem subtextos importantes e trazem questões que devem ser pensadas. O grande trunfo de Getúlio é brincar com as possibilidades da sua arte e entender que o “cômico” pode trazer consigo tantas potências quanto a mais séria obra-prima de um artista. Rindo ou não, com humor, ironia, deboche ou não, o artista delimita seus limites e constrói uma poderosa narrativa de resistência mesmo em meio a tempos tão caretas e chatos.

Marmota é complexo, dançante, divertido e provocador. Um disco acima da média e diferente do que hoje se vê no mercado. É uma possibilidade nova que há tempos não vemos num cenário mais mainstream brasileiro. Questões sobre gênero, ocupação das cidades e tantas outras são levantadas aqui de forma espontânea e em ritmos pegajosos. O timbre excelente do cantor harmoniza muito com a textura de seu trabalho e em cada faixa encontra espaço para brilhar.

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Mais do que o perigo da cidade, Getúlio Abelha pode ser a salvação deste país fadado ao fracasso e a caretice. Marmota encontra na nossa mistura e musicalidade o respiro necessário para que continuemos construindo um lugar melhor repleto de cores. Porque a Arte é sobretudo espaço de experimentação e provocação. Enquanto ninguém sequer tentou, Getúlio fez e conseguiu com maestria. Dos riffs de guitarra às sanfonas, é no encontro de ritmos, gêneros, letras e temas que o Marmota encontrou seu lugar. Um disco extremamente autoconsciente.

Nota: 4.5/5

Autor do Post:

Paulo Rossi

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Um sonhador. Às vezes idealista, geralmente pessimista e sempre por aí metido num bocado de coisas. Apaixonado por audiovisual, cearense com baita orgulho e um questionador nato com vontade de gritar ao mundo tudo que acredita.

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