CRÍTICA | 4ª temporada de “The Crown” aborda momentos mais tristes da família real

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Com a inclusão oficial de Lady Di (Emma Corrin) na família, a quarta temporada de The Crown trouxe momentos mais íntimos dos integrantes. Um das ótimas demonstrações disso, foi quando os criadores optaram por mostrar uma breve cena de Diana sozinha em seu vestido de noiva no grande salão, e então seguir com a narrativa de desconstrução do “felizes para sempre”. E é assim que a sensação de amplitude e solidão começa a ser executada, sendo muito bem feita e condizente durante toda a temporada. É com essa característica de sentimentos opostos que a série obtém êxito em sua trama, por lidar com questões externas e internas, e assim transmitir os efeitos disso em seus personagens.

Atenção: Essa crítica contém spoilers da quarta temporada.

As controvérsias sempre existiram quando se trata da monarquia. Pois além de desempenhar uma grande participação em decisões políticas, ela também interfere nos direitos daquela família, seja para efeitos positivos ou negativos. No começo dessa quarta temporada já percebemos o clima tenso e triste que começa a se instalar, quando um imenso conflito que ocorria na Irlanda do Norte acaba resultando no atentado que tirou a vida de Louis Mountbatten (Charles Dance) e sua família. Ele era primo da rainha Elizabeth (Olivia Colman), e muito próximo de Charles (Josh O’Connor), e nesse episódio já conseguimos ver como essa tragédia iria influenciar na vida dos dois.

É também um momento que reafirma o fato de que quando ocorrem conflitos externos na sociedade, esses acabam interferindo nos assuntos familiares. No qual, pouco existe separação, pois assim como acompanhamos desde a primeira temporada da série, os integrantes da família real acabam sempre lidando com as consequências da monarquia às custas dos sentimentos de seus próprios familiares.

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Logo, no quesito intimidade, acompanhamos na série a importância da estadia no Castelo de Balmoral da família real, no qual tanto a primeira-ministra quanto Diana passam por uma espécie de teste social. Ambas querem passar uma boa impressão para a família que tem seus próprios costumes e regras, principalmente nessa propriedade onde seria um “refúgio” para eles. Tudo parece dar muito certo para Diana, que agrada grande parte da família, porém não possui o amor verdadeiro de Charles que ainda se corresponde com Camilla (Emerald Fennell).

É com o início do noivado então que a desconstrução do conto de fadas começa, mostrando um ótimo contraste em tela entre a vida de Diana antes de entrar para a família real e depois. Os momentos de publicidade, cercada de fotógrafos, jornalistas e seu noivo ou suas amigas, e os momentos em que entra no Palácio de Buckingham e é instruída às normas de comportamento, e que fica sozinha no palácio, são demonstrações bem claras dos altos e baixos que começam a interferir na saúde mental de Diana. A enorme pressão também imposta a ela é algo muito bem retratado na série, tanto que em determinado momento é dito que ela “não tem a opção de desapontar”.

Esse terceiro episódio é um dos mais tristes pois retrata todos os problemas que Diana começou a enfrentar como a bulimia, a solidão, a pressão, a necessidade de adequação, e constantes lembranças de uma possível ameaça à seu relacionamento que mal tinha começado, sem qualquer suporte emocional de alguém que estivesse ao lado dela. Também percebemos como era um matrimônio nada saudável, pois aconteceu e continuou principalmente pelo fato de que a família insistiu, do que por vontade do casal. É nesse momento que fica evidente um padrão nocivo seguido por muitos anos, no qual a princesa Margaret (Helena Bonham Carter) constata: “Charles ama outra pessoa. Quantas vezes esta família cometerá o mesmo erro?”; referindo-se tanto ao sobrinho quanto a si mesma e sua infelicidade no âmbito amoroso ocasionada pela coroa.

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A direção desse episódio é muito pontual e funciona magnificamente em seu clímax. Como os espectadores já sabem o que está para acontecer no futuro, com base na história real, a direção se concentra na expressão de cada indivíduo antes do casamento. Os olhos marejados, a apreensão no olhar de cada um, pensativos e isolados, transmitindo o oposto do que seria o dia mais feliz na vida de alguém.

Mais eventos tristes acompanham o desenvolvimento da narrativa na série: retratando o desaparecimento do filho da primeira-ministra Thatcher (Gillian Anderson); a tentativa de aproximação tardia da rainha Elizabeth com seus filhos; a depressão de Diana; os conflitos das obrigações reais enquanto Diana tentava ser uma mãe presente, e sua crise no casamento com Charles; o declínio da saúde da princesa Margaret; a descoberta sobre as primas de Elizabeth e Margaret que tinham deficiências mentais e por isso vivam escondidas em uma instituição; e o acidente de uma avalanche que quase atinge o príncipe Charles.

Então, no episódio final dessa temporada, os conflitos são pautados por amargas lutas. Thatcher por sua posição como primeira-ministra ameaçada, Charles por seu desejo de divórcio e Diana por sua vontade de ser útil e cumprir com seu papel dentro da família.

Porém, enquanto de um lado temos uma renúncia pacífica, do outro temos uma guerra ainda mais nociva. E a comemoração de Natal no Castelo de Balmoral ilustra perfeitamente o desequilíbrio que existe entre Charles e Diana. Que mesmo durante uma época de união em família, conseguem se ver ainda mais distantes, principalmente Diana, que como ela mesma descreve, vive em uma caverna gelada sem amor e esperança. Nesse momento, a direção é perspicaz em mostrar Diana longe dos demais, quase fora do retrato que o fotógrafo registra. Mas é incrível como os criadores da série amplificam esse debate para algo mais estrutural que existe nas relações de todos ali, na qual em algum momento já se sentiram solitários, irrelevantes e perdidos nesse sistema que gira em torno da rainha.

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A quarta temporada de The Crown recebeu 24 indicações para o Emmy desse ano, e você pode assistir a série completa na Netflix.

Nota: 5 / 5

Autor do Post:

Bruna Berlitz

administrator

Crítica de cinema e graduada em Produção Multimídia. Experiência na área do audiovisual, com ênfase em filmagens e edição de vídeos. Essencialmente da casa Lufa-Lufa, apaixonada por gatos, e gosto de pregar a palavra de Jane Austen por aí.

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