CRÍTICA | ‘The United States vs. Billie Holiday’ erra somente na narrativa intrincada

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A primeira cena de ‘The United States vs. Billie Holiday‘ dá o tom do filme. Os linchamentos raciais que aconteceram nos EUA não só é tema de uma das maiores canções de Billie como também guia boa parte da trama que acompanha a sua trajetória e vida. Neste filme, compreendemos a forma como a renomada cantora de jazz se tonou alvo do Departamento Federal de Narcóticos dos EUA, que arma uma operação secreta para prendê-la a qualquer custo.

Impossível não exaltar em uma crítica sobre este trabalho o mais óbvio dos seus acertos: a impecável atriz Andra Day, ganhadora já de diversos prêmios e indicada a Melhor Atriz no Oscar 2021 – essa é a única categoria em que o longa está concorrendo na premiação, que dá vida à protagonista. Cheia de camadas, a atriz consegue fazer uma Billie real e tão urgente em 2021 quanto na década de 1950. Seu carisma em tela faz com que o espectador fique fascinado e descubra um pouco mais sobre a vida e carreira da cantora. Elenco de apoio igualmente excelente, embora não possua momentos de brilho tão intensos (obviamente) quanto a artista que dá nome ao filme.

Como parte indissociável desta história está o racismo. Todo e qualquer trabalho deve ter responsabilidade com o contexto com o qual está relacionado. Seria impossível falar de Billie Holiday sem tocar em tantas feridas abertas que continuam fazendo vítimas de racismo nos EUA e nos quatro cantos do mundo. O filme consegue ser didático, mas bastante espontâneo e objetivo ao tratar de um assunto tão sério. Sem medo, o diretor Lee Daniels escancara o pior de um mundo de glamour que mascara muitas de suas faces mais cruéis e nojentas. E que escancara também o mundo difícil sobre este mundo.

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Todo o machismo, as pressões e problemas sofridos em decorrência da perseguição do governo estadunidense, o preconceito sofrido pelo jazz, a falsa guerra às drogas, a proibição de cantar músicas que não fossem sobre amor e até Louis Armstrong estão presentes em ‘The United States vs. Billie Holiday‘. Tudo girando, obviamente, ao redor da grande estrela Billie Holiday.

A intenção de relembrar fases da carreira a partir de uma entrevista é interessante, porém acabamos por conhecer apenas flashes de sua história. O filme foca bastante na relação entre United States (governo) e Billie. Há espaço, mesmo que pequeno, para tratar sua prisão e passagem pela cadeia e o relacionamento (essa parte mais ficcional) com Jimmy Fletcher (interpretado pelo excepcional Trevante Rhodes) é talvez um dos pontos mais aprofundados, deixando questionamentos e demonstrando de que forma a estrutura racista pode transformar aliados em inimigos de forma cruel.

Algumas sequências são bastante elegantes, enquanto outras bastante cruas. O longa é muito satisfatório na composição da década de 40 e 50 e consegue criar uma atmosfera envolvente. A direção dos atores é competente e algumas sequências, principalmente mais longas e sem cortes, conseguem acompanhar o elenco em cena de forma natural. Há uma cena específica, quando Billie encontra um homem linchado, muito pesada e muito bem realizada.

A sonoplastia e principalmente a trilha sonora casam bem e compõem o cenário perfeito para a história. As canções de Holiday dão o toque final em diversas cenas e perpassam por todo o longa deixando também a sua digital musical no trabalho.

Com certa delicadeza e um trabalho de caracterização impecável, ‘The United States vs. Billie Holiday‘ é um filme encantador, mas ao tempo pesado e bastante político. Um filme para lembrarmos que apesar do aparente glamour, os artista negros passam por processos muito diferentes e muitas discriminações, principalmente em comparação a artistas brancos. Infelizmente, o racismo no mercado fonográfico é apenas o reflexo de toda uma sociedade.

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Apesar de tantos acertos, o principal problema do trabalho de Lee Daniels elimina muito do brilho e poder do longa. A narrativa, da forma que é apresentada, é confusa demais e a história fica intrincada. A forma como não é contada cronologicamente e em flashes prejudica o ritmo, causa estranheza e sensação de que algo está se perdendo em tela, sejam informações anteriores sobre a vida de Billie ou sejam detalhes mais aprofundados em alguns momentos. A trama é ainda mais confusa para quem não conhece anteriormente a história de Holiday.

É corajoso contar uma história, principalmente biográfica, de forma não cronológica, mas infelizmente aqui a história parece apenas se perder diante das idas e vindas, criando uma sensação de que estamos conhecendo detalhes muito minúsculos de uma biografia vasta e poderosa demais. Isso prejudica muito a fluidez de toda a narrativa e o entendimento dela. Como já destacado anteriormente, não só pela forma como vai e volta no tempo, mas principalmente por escolher trechos específicos da carreira de Billie. Em uma cena estamos em um ano, em outra estamos em outro: milhares de coisas já aconteceram e o roteiro não dá de conta de explicar tudo o que aconteceu para chegar até o ponto em que está agora. Isso se repete em todo o filme. A história fica confusa demais, se perde em vários momentos que parecem desprendidos de uma “teia” narrativa maior e uma linha de raciocínio.

Ainda assim, ao trazer uma carreira tão intensa e questões tão sérias, ‘The United States vs. Billie Holiday’ se torna maior que uma biografia, se torna necessário para que se entenda não só a história da gigante Billie Holiday, mas a de tantas outras pessoas.

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Nota: 3,8/5

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Autor do Post:

Paulo Rossi

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Um sonhador. Às vezes idealista, geralmente pessimista e sempre por aí metido num bocado de coisas. Apaixonado por audiovisual, cearense com baita orgulho e um questionador nato com vontade de gritar ao mundo tudo que acredita.

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