ENTREVISTA | Rapha Pinheiro fala sobre a Guará e o quadrinho brasileiro

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Dia 30 de janeiro é o dia do quadrinho nacional e para marcar essa data, a Tribernna conversou com Rapha Pinheiro, um quadrinista sensacional, Editor-Chefe do Universo Guará, professor da Escola de Comunicação e Design Digital (ECDD) do Instituto Infnet e do Inko, formado em Arquitetura e Urbanismo pela FAU UFRJ e Mestre em Mídias Criativas pela ECO UFRJ.

Nessa entrevista ele falou sobre o Universo Guará e o cenário contemporâneo dos quadrinhos brasileiros, confere o papo com o Rapha Pinheiro:

1 – A gente consegue ‘dar um google’ e descobrir sobre seu trabalho e formação, mas quem é Rapha Pinheiro?

RP: Eu tenho uma historinha pronta que eu conto em toda entrevista. Ela é muito parecida com o que você vai achar no também. Se você perguntar isso de forma mais filosófica e numa mesa de bar, a minha resposta seria mais próxima disso aqui: sou um cara que acredita mesmo no poder das histórias e na habilidade dos autores nacionais em fazer isso. Eu dedico a minha vida hoje a ativar a cena de quadrinhos, seja formando novos artistas no Inko, revelando essa galera no Almanaque ou tentando mudar a forma como consumimos quadrinho com a linha editorial da Guará. Também gosto de desenhar na rua e em bares no tempo livre, ver os outros através da caneta.

2 – Como você fez essa migração da arquitetura para os quadrinhos?

RP: Eu não cheguei a trabalhar com arquitetura. Comecei a fazer quadrinhos na faculdade e acabei direcionando todo o meu estudo pra isso. Meu TCC foi um quadrinho sobre um prédio histórico do Rio e inclusive rolou polêmica porque um dos professores achou que “não era arquitetura”. Eu diria que a mudança passou pela docência, o que permitiu que eu pagasse as contas (e ainda permite) mais do que os quadrinhos ou a arquitetura jamais fizeram.

Capa da primeira edição do Almanaque Guará

3 – Como surgiu a Guará?

RP: A Guará surgiu bem antes de mim, na verdade. Começou em 2016 como uma produtora de conteúdo que também fazia quadrinhos. A proximidade com a DT Filmes por conta do nosso diretor Gabriel Wainer foi sempre muito importante pra manter a coisa toda funcionando e cercada de boas relações com o audiovisual. Eu entrei no final de 2019, com uma reformulação (necessária) na linha editorial. A ideia era encontrar um outro caminho pra editora e eu fui o encarregado de encabeçar essa empreitada. Ainda é cedo pra dizer que deu certo… mas está nascendo algo legal do nosso trabalho por aqui.

4 – Exceto Turma da Mônica, não lembro de outra HQ brasileira que fosse entregue mensalmente em um formato de almanaque através de um sistema de assinatura. Desde o ano passado temos o Almanaque Guará, como surgiu essa ideia e qual a importância do almanaque para os quadrinhos nacionais?

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RP: A verdade é que a gente não inventou a roda. Temos títulos assim a rodo se olharmos pros anos 80 ou antes disso. Por vários motivos históricos/econômicos/políticos, os quadrinhos no Brasil tiveram uma seca nos anos 90 e estamos reconstruindo a cena desde meados da década de 2000. Essa reconstrução está acontecendo com um modelo diferente: mais títulos, menos exemplares, histórias fechadas, muito licenciamento de coisa de fora e artigos de colecionador. Fazer um almanaque barato e acessível, seriado, nacional e de produção consistente é remar contra a corrente hoje. Minha ideia com o Almanaque Guará sempre foi de trazer o gibi de volta pra mão da molecada e “des-elitizar” o gibi. Os leitores envelheceram e eu não vejo muita preocupação em renovar os leitores por aí. O Almanaque é uma iniciativa que visa fazer exatamente isso.

O gibi no Brasil não está ficando caro, está gentrificando.

O mercado editorial e o imobiliário têm mais em comum do que vocês imaginam, viu? Lembrando que no imobiliário, a bolha já estourou algumas vezes.

Pensem nisso.

— Rapha Pinheiro (@RaphaCPinheiro) January 14, 2022

Recentemente você fez um tweet que pode-se dizer polêmico, no qual você disse que o mercado de quadrinhos e o mercado imobiliário tem suas semelhanças. No âmbito de negócios, como você vê o cenário brasileiro de HQs atualmente e para os próximos anos?

RP: Isso é uma pergunta espinhosa e, sinceramente, ninguém sabe bem o que está acontecendo. É muito difícil prever o futuro do mercado de HQ no Brasil e qualquer um que tiver a resposta está especulando. Dito isso, eu enxergo dois problemas principais com a forma como as coisas caminham hoje. 1. O que citei ali na outra pergunta, os leitores estão envelhecendo e, em breve, vamos extinguir os quadrinhos no Brasil se não fizermos nada. Sem novos leitores jovens, não vejo futuro pra cena nacional. 2. O quadrinho está se tornando um objeto de desejo por si só e não pela experiência de leitura. Estamos cada vez mais comprando gibis “essenciais” pra ter na estante e não pra sentar e ler. Isso já aconteceu antes, nos anos 90 lá nos EUA. Foi quando rolou a crise que criou a Image e quase faliu a Marvel. Um hora todos esses leitores/colecionadores vão perceber que ter um quarto entulhado de capa dura especial não tem tanto valor assim porque todo mundo tem um igual. A hora que isso acontecer, muita gente vai sair desse mercado e vai ficar só que compra pra ler. Por isso a Guará está tão preocupada em fazer gibi pra ser lido e não pra (só) ser colocado na estante.

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6 – E no âmbito artístico?

RP: Aí é só melhora. A quantidade de artistas no Brasil hoje é sem precedentes. Quanto mais gente fazendo, mais diversidade, mais qualidade e mais desafiador é para fazer parte dos relevantes. É uma tendência natural de um mercado que está crescendo e amadurecendo. Trabalhar pra fora (e ganhar em dólar) está se mostrando muito vantajoso para vários artistas aqui que conseguem viver disso e dizerem com tranquilidade que são quadrinistas profissionais. Pra fazer isso aqui pra dentro ainda é complicado, talvez só na MSP e agora, tudo dando certo, na Guará.

7 – Ainda falando desse cenário, muitos projetos nesses últimos anos conseguem ver a luz do dia por conta de financiamentos coletivos. Você acha que esse é o caminho a se seguir, ou as editoras ainda tem seu importante papel para os quadrinhos nacionais?

RP: O Catarse em especial foi MUITO importante pro cenário que temos hoje. Ele deu espaço para artistas e obras que jamais sairiam da gaveta de outra maneira. Dito isso, o perfil da plataforma (e dos apoiadores) mudou e ainda está mudando. As editoras e os “grandes autores” estão com projetos por lá, institucionalizando a plataforma e tirando o espaço que o independente tinha no início. Não acho que isso seja necessariamente ruim, é uma realidade e precisamos estar atentos pra ver como isso vai se desenrolar. Talvez a profissionalização do financiamento coletivo eleve a qualidade dos projetos no futuro próximo (se os apoiadores ainda acharem vantagem apoiar mesmo com os atrasos), acho bem possível.

8 – Ano passado vocês fizeram uma live para anunciar o ‘Guaraverso’ e nesse mês anunciaram a pré-venda da HQ ‘Solo’. O que você pode dar de spoiler para os nossos leitores sobre os próximos lançamentos da Guará?

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RP: Vamos fazer, ainda nesse primeiro semestre, uma nova edição do evento Expandindo o Universo, onde anunciamos as novidades que vem por aí. Estamos montando algo grande pra esse ano, mas ainda não posso revelar muito sobre isso. O que eu posso dizer com certeza é que a produção da Segunda Temporada dos títulos do Almanaque Guará já vai começar e que teremos, pelo menos, 5 títulos além do Almanaque. Também vamos ter nosso primeiro romance da editora. Nem só de quadrinho se vive a Guará!

9 – Quero agradecer imensamente por ceder esse tempo para responder à Tribernna, e deixo esse espaço final livre caso queira fazer mais alguma colocação ou trazer informação.

RP – Eu que agradeço pelo espaço. Adorei as perguntas! O que eu tenho pra dizer é: bora ler gibi nacional. A gente exporta mão de obra porque nossos artistas são muito bons, o que falta aqui são leitores interessados e dispostos a comprar material nacional. Aproveito pra convidar todo mundo que tem interesse em ingressar nesse mundo a conhecer o Inko, curso onde formamos quase uma “divisão de base” da Guará. É o lugar mais legal pra quem está começando porque você vai estar inserido nos debates e evoluções da cena em tempo real. Aquele abraço!

Autor do Post:

Hector Sousa

administrator

Sergipano. Bacharel em Cinema e Audiovisual. Cineasta, podcaster e improvisador. Escreve para Tribernna sobre cultura pop. Amante daquele pagodinho e fã do Miles Morales.

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